Artigo completo sobre Água Retorta: onde a neblina abraça os vales vulcânicos
Freguesia açoriana a 369 metros de altitude, entre cryptomérias, ribeiras sinuosas e memórias agríco
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A neblina enrosca-se nas pastagens como um gato que regressou à caminha, desfazendo-se ao sol da manhã enquanto a ribeira murmura entre basaltos polidos. É este som constante —água contra pedra— que baptizou o lugar, não por poesia mas por geografia: a água desce mesmo torta, obrigada a contornar lajedos que o vulcão espalhou. Aqui, o silêncio pesa. Só o vento nas cryptomérias e, às vezes, o sino da Igreja de São José que ninguém toca há meses, mas que ainda vibra na memória dos mais velhos quando o ar está parado.
Raízes fincadas no basalto
Água Retorta nasceu do cansaço. Camponeses do século XV que, depois de esgotarem as terras da costa, subiram até aqui arrancar milho a enxadas desbotadas. O terramoto de 1522 partiu paredes, mas não os pés deles — voltaram a levantar casas baixas, muros de pedra preta que ainda hoje separam hortas onde se planta o mesmo: batata, feijão, nabos. Entre 1955 e 1975, a emigração levou metade das famílias. As casas fecharam-se com cadeados novos; dentro, mesas postas como se alguém fosse jantar. A escola primária virou centro comunitário. Nas paredes, quadros com fotografias a preto e branco de crianças que agora têm netos em Toronto.
Onde a pedra conta histórias
A arquitectura não impressiona — resiste. Janelas caiadas de branco para contrariar o cinzento do inverno; portadas pintadas de azul anil que descasca ao sol; telhados onde o musgo cresce mais depressa que o capim. A Igreja de São José, de 1853, cabe toda num corredor de 20 metros: quatro bancos de madeira, um altar de madeira pintada a ouro, um cântico que se arrasta em dialecto. A 19 de março, a festa do padroeiro reúne quem restou. Serve-se sopa de nabos em tigelas de barro, bebe-se vinho de cheiro que sai engarrafado em garrafas de água de cinco litros. Em maio, a romaria ao Senhor dos Enfermos começa às seis da manhã: subida de 3 km, joelhos a doerem, promessas pagas com velas acesas na capela da Conceição que nem tem electricidade.
Sabores de terra húmida
Às quartas, o cheiro a lenha queimada anuncia o caldo de nabos com linguiça caseira — fica ao lume desde as seis da manhã, engrossa com toucinho entornado. O peixe-espada preto chega num jipe sujo de sal; grelha-se com banana da terra que se compra ao vizinho por 1,50 € o cacho. O ensopado de trigo leva o dia inteiro: trigo mole de solha, carne de vaca velha, pão de milho para mergulhar. Nos dias de festa, mulheres de avental amassam bolos de véspera — a massa cresce ao léu do fogão, polvilha-se canela em pau ralado na hora. O doce de inhame é servido em taças de loiça rachada; a aguardente de maracujá queima a garganta e desata confissões que não se pediram.
Trilho entre céu e oceano
O caminho para Faial da Terra começa no chafariz onde os cães bebem. São sete quilómetros de lama quando chove, poeira quando não chove. Passa-se pela levada que abastece a albufeira, por currais onde vacas marrons olham sem pressa. A meio, a ribeira exige molhar os pés: não há ponte, só duas pedras instáveis. Quando a neblina levanta, avista-se o Atlântico em camadas — azul escuro, azul cinzento, branco de espuma. As falésias caem a pique; antigas lavas em colchas de almofada. Nenhuma placa explica nada: quem quer saber, pergunta ao pastor que desci com o rebanho às sete da manhã.
A estrada municipal acaba sem despedida. O alcatrão cede a uma vereda de terra batida onde a erva cresce no meio. É ali que Água Retorta se resume: não é sítio para chegar, é sítio para ficar parado até ouvir o estômago rosnar — e perceber que é hora de voltar para a sopa que ainda está quente no tacho.