Artigo completo sobre Porto Formoso: Entre o Chá, o Basalto e o Atlântico
Freguesia açoriana onde se cultiva chá europeu e a história liberal deixou marcas nas pedras
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O cheiro a folha de chá cai do escorrega quando o vento sul empurra o nevoeiro pela Ladeira da Velha - é um cheiro doce, quase podre, que se agarra à roupa como perfume de ex-namorada. Em Porto Formoso, o mar não é pano de fundo: é personagem principal que entra pela janela das casas em dias de tempestade e deixa sal nas vidraças. A baía que os homens chamaram "formosa" devia ter sido vista em dia de maré cheia e céu limpo - porque quando o nordeste carrega, aquele abraço de água transforma-se num ringue onde as ondas batem-se como boxeadores.
A república que veio antes da hora
Em 1908, enquanto Lisboa discutia se valia a pena ter rei, aqui já se votava em praça pública. A Câmara republicana durou o que durou - três anos depois, a República oficial chegou e ninguém reparou na diferença. O Castelo, essa ruína de pedra que parece dente partido, viu de tudo: soldados constitucionais aos tiros, baleeiros a derreter gordura no mesmo sítio onde antes se guardava pólvora. Hoje as crianças brincam às escondidas entre as paredes que ainda cheiram a óleo de baleia quando o sol aquece a pedra.
Pedra que fala, fé que não cansa
A ermida dos Anjos é tão pequena que cabe numa mão - dizem que foi o primeiro telhado de pedra erguido em São Miguel, num tempo em que os homens ainda dormiam de olho aberto com medo dos ventos. A Igreja da Graça tem uma porta que range exactamente como a da casa onde cresci - é o mesmo som de ferro contra pedra que me faz olhar para trás sempre que passo. No convento da Vitória, as freiras foram-se embora mas deixaram o silêncio instalado como hóspede que paga renda.
Chá que não é de Lisboa
A fábrica de chá reabriu porque o Neto do Sr. Augusto não quis ver a máquina do avô a ferrugar. Hoje fazem-se visitas guiadas: mostram-se os tabuleiros de madeira onde as folhas adormecem, deixam-se os turistas cheirar o chá verde que tem gosto a terra molhada. Mas o segredo está no canto do armazém: é ali que o Sr. Armindo, com 83 anos, ainda guarda uma lata de chá de 1953 que ninguém se atreve a abrir. Nas encostas acima da fábrica, entre as plantações, encontram-se pedras com conchas dentro - fósseis que provam que o mar já foi aqui, antes dos homens e antes do chá.
Areia que queima, água que corte
A Praia dos Moinhos é daquelas que faz os pés arrepiar: a areia preta absorve o calor como esponja e queima sola de sapato em julho. A água é tão clara que se vêm as sardinhas a fugir das pernas dos banhistas. A cascata cai de um desfiladeiro como se estivesse a fugir de alguma coisa - forma uma piscina natural onde as mães levam os filhos depois da escola, carregando toalhas de strip de praia e sanduíches de atum. O trilho da Ladeira é um espiral de pedra solta onde ainda se cruza com pastores que falam com as cabras como se fossem pessoas - e as cabras respondem, cada uma com o seu nome.
O que se come, o que se guarda
No Gato, que é o restaurante que não tem placa mas toda a gente conhece, as lapas chegam na frigideira ainda a saltar. O Zé serve-as com limão do quintal e manteiga que derrete e escorre pelos dedos. As mulheres da aldeia ainda fazem mantas de retalho - não é artesanato, é necessidade: aproveitam-se as camisas dos filhos, os vestidos das filhas, costuram-se retalhos que contam vidas inteiras num metro quadrado. Em setembro, a Graça desce à rua e a freguesia inteira cheira a frito. O bodo não tem hora para acabar - há sempre um tio que traz mais uma garrafa de aguardente e uma história que já toda a gente conhece mas ninguém se cansa de ouvir.
Quando o sol se põe atrás do Castelo, a baía fica dourada como se alguém tivesse derramado mel na água. É nesta hora que o chá e o mar se encontram - o cheiro doce das folhas mistura-se com o sal das marés, e o sino da Graça toca sete vezes (o sacristão tem surdez selectiva: toca sempre uma a mais). Quem passa pela Ladeira nesta hora leva Porto Formoso no nariz e na roupa - e durante dias, onde quer que vá, vai cheirar a este pedaço de terra que o mar tentou levar mas não conseguiu.