Artigo completo sobre Cedros: vinhas de Verdelho na encosta norte do Faial
Igreja barroca, adegas centenárias e curraletas de basalto numa vila vinícola a 282 metros do mar
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O cheiro a mosto fermentado escapa das adegas escavadas na pedra basáltica, misturando-se com o aroma de terra molhada que sobe dos terraços de vinha. Em Cedros, os muros de pedra negra desenham curvas na encosta norte do Faial, protegendo as cepas de Verdelho do vento atlântico que varre o Canal sem tréguas. O silêncio da vila interrompe-se apenas pelo tanger do sino da Igreja Matriz e pelo ranger distante de um portão de madeira gretada pelo sal. Aqui, a 282 metros sobre o mar, 872 habitantes mantêm viva uma tradição vinícola que remonta ao século XVI, quando os navios que atravessavam o Atlântico faziam escala na ilha para carregar pipas deste vinho que conquistou os mercados europeus.
Pedra, talha e azulejo
A Igreja Matriz de São João Baptista ergue-se no coração da vila, construção setecentista cuja fachada branca contrasta com o basalto escuro das casas senhoriais que a rodeiam. Lá dentro, a luz coada pelas janelas altas ilumina o retábulo barroco em talha dourada e os painéis de azulejo do século XVIII que narram episódios da vida do santo padroeiro. Poucos metros adiante, o Império do Espírito Santo, construído em 1873, conserva a alfaia usada nas procissões da Pentecoste — coroas de prata, bandeiras bordadas por Fausta de Melo em 1921, cetros que passam de geração em geração. O Cruzeiro de Cedros, lavrado em 1753 por António Teixeira, marca o centro histórico onde convergem as ruas que descem até aos campos de cultivo.
Subindo pela estrada que serpenteia entre pastagens divididas por muros de pedra seca, a Ermida de Nossa Senhora da Ajuda surge num promontório com vista desimpedida sobre a costa norte. Daqui, a ilha de São Jorge desenha-se no horizonte como uma lâmina escura sobre o azul profundo do Canal, enquanto o Pico exibe o cone perfeitamente simétrico que os navegadores usavam como referência há cinco séculos.
Nas curraletas do Verdelho
As vinhas de Cedros crescem protegidas por curraletas — muretes de basalta que formam pequenos recintos onde as cepas se abrigam do vento salino. Nas quintas como a do Canto e a do Furão, ainda se pisa a uva em lagares de pedra e se deixa o mosto fermentar em pipas de castanho. O Verdelho que daqui sai pode ser seco, com acidez viva e notas de cidra, ou licoroso, envelhecido até ganhar tons de âmbar e sabores a amêndoa tostada. Na Feira do Vinho e do Artesanato, que se realiza no primeiro fim-de-semana de setembro desde 1998, os produtores abrem as portas das adegas e servem provas acompanhadas de queijadas de leite da pastelaria Silva e chouriço fumado em brasas de urze.
À mesa, o ensopado de inhames com molho de tomate e carne de vaca chega fumegante em travessas de barro, enquanto o caldo de nabos com linguiça aquece as noites frescas de inverno. O cozido de Cedros, cozinhado em forno de lenha, mistura batata-doce, couve, chouriço e morcela numa camada única de sabores defumados. Nos doces, os bolos de véspera, temperados com canela e erva-doce, acompanham o café bebido devagar no Café Central, aberto desde 1952 pela família Bettencourt.
Entre a levada e a fajã
O Trilho da Levada segue um antigo canal de irrigação construído em 1942 que atravessa quatro quilómetros de paisagem moldada pela agricultura. Campos de hortênsias explodem em azul e rosa durante o verão, enquanto as pastagens verdejantes se estendem até ao precipício onde a terra se lança sobre o mar. A Mata de São João, pequena mancha de laurissilva com 3,7 hectares, oferece sombra fresca e o canto discreto do priolo, ave endémica que aqui encontra refúgio. Lá em baixo, a Praia do Norte é uma fajã de seixos rolados onde se pratica a pesca de arremesso, com o oceano a rebentar contra as rochas basálticas em explosões de espuma branca.
Do Miradouro do Ribeiro Fundo, construído em 2008, a vista abrange o Canal inteiro — São Jorge a norte, o Pico a leste, e a costa recortada do Faial a desdobrar-se em enseadas e promontórios até onde a vista alcança. O vento traz o cheiro a maresia e a erva pisada, enquanto as gaivotas planam em círculos lentos sobre as arribas.
O tempo das sopas
Na Pentecoste, as Sopas do Espírito Santo são distribuídas à porta do Império — pão do forno de lenha de Manuel da Graça, embebido em caldo de carne, servido com um pedaço de alcatra cozida e uma fatia de massa sovada pela Maria do Carmo há 40 anos. A tradição repete-se há séculos, reunindo a comunidade inteira num ritual de partilha que atravessa gerações. Na Semana Santa, a Procissão do Senhor dos Passos percorre as ruas calcetadas da vila, com os andores iluminados por velas que tremem ao vento da noite, desde a Igreja Matriz até ao Cruzeiro.
Cedros conserva o ritmo de uma vila onde os 218 habitantes com mais de 65 anos ainda se cumprimentam pelo nome próprio e onde os 123 jovens aprendem, nas festas de São João Baptista, os passos dos chamarritas que os avós dançavam nas eiras. Ao entardecer, quando a luz rasante do Atlântico incendeia as vidraças da Igreja Matriz, o aroma a lenha de cedro-da-ilha escapa das lareiras e espalha-se pelas ruas — cheiro a resina e a tempo acumulado na madeira de árvores que testemunharam cinco séculos de vindimas, procissões e travessias.