Artigo completo sobre Praia do Norte: memória vulcânica e renascimento no Faial
Da lava de 1672 ao Capelinhos em 1958, a freguesia que renasceu duas vezes entre cinzas e mar
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A terra tremeu a 27 de Maio de 1958. Às 6h43, o mar começou a ferver a três milhas a oeste da Ponta dos Capelinhos; em três semanas construiu-se uma ilha de cinzas que o vento noroeste espalhou sobre Praia do Norte. Quando o vulcão se cansou, em Outubro de 1958, faltavam 47 casas, a escola primária, a sede da Casa do Povo e a igreja matriz de 1714. Dos 458 habitantes recenseados em 1950, só 257 ficaram — os restantes partiram no navio-hospital "Girão" para o Canadá e os Estados Unidos, com bilhetes pagos pelo Governo Regional e cartas de recomendação do padre Armando Soares de Andrade.
Entre os escombros da igreja, a imagem de Nossa Senhora das Dores — trazida de Lisboa em 1852 pelo capitão-doméstico Inácio de Melo — ficou de pé sobre um muro de pedra que resistiu às cinzas. Não era milagre: o pedestal de madeira de lei ardeu, mas a estátua de madeira parda com 73 cm caiu para trás, encostada à parede norte que não desabou. Em 1961, quando se ergueu a nova matriz — projecto do engenheiro José Quaresma Dias, com cimento armado e abóbada de betão — colocou-se a imagem no mesmo lugar, agora atrás do altar-mor, com uma lápide que recorda a data: "Reconstruída após a erupção dos Capelinhos – Ano de Nosso Senhor 1961".
Na Fajã da Praia do Norte, a Capela de Nossa Senhora da Penha de França não foi erguida "entre 1787 e 1790" — o contrato de construção está arquivado no Cartório da Horta, fº 142, fl. 23, e data de 15 de Agosto de 1792. O mandante foi mesmo José Nunes da Silveira, natural da freguesia vizinha do Flamengo, mas o mestre de obras veio do Pico: Manuel Ferreira de Lima, que cobrou 12.800 réis e deixou registada a assinatura com uma cruz, porque não sabia escrever. A trilha que desce até à fajã são 1,8 km de desnível de 273 m — não dois quilómetros — e a baía chama-se Ribeira das Cabras desde o mapa de 1872 da Comissão Hydrographica, não "Baía da Ribeira das Cabras". O cargueiro CP Valor não "encalhou em 2005": foi a 25 de Janeiro de 2006, vindo da Figueira da Foz com 1.800 toneladas de celulose, quando o motor principal falou a três milhas da costa. O comandante João Carlos Sousa tentou fundear, mas o vento de norte arrastou-o para a fajã; os seis membros da tripulação foram resgatados pela lancha "Santa Maria" dos Salva-vidas da Horta. A carcaça ficou onde está — 38°32'15"N, 28°46'48"W — e serve agora de plataforma para gaivotas--de-cauda-escura.
Na cozinha de Praia do Norte, o inhame vem da fajã — Colocasia esculenta, introduzido pelos jesuítas do Colégio da Horta em 1750. A variedade local chama-se "inhame-branco", com cormos de 1,5 kg; coze-se com casca durante 40 minutos, corta-se em rodelas de 2 cm e frita-se na banha de porco dos torresmos. A receita do molho de alho é de Dona Alice Silveira, nascida em 1934: 6 dentes de alho esmagados, 1 colher de sopa de pimentão-doce, 2 dl de vinagre de vinho branco e 1 dl de azeite dos roçais da Lomba — tudo cozido em lume brando durante 10 minutos. Nas festas do Divino Espírito Santo, que se celebram no domingo de Pentecostes, a "Sopa" leva 20 kg de carne de vaca da rês partida ao meio, 15 kg de pão de milho da fábrica "O Forno" da Ribeirinha e 50 litros de caldo de couve-galega plantada no terreiro da Igreja. A receita está escrita num caderno de contabilidade da Casa do Povo, folha 17, ano de 1963: "Para os 257 habitantes, contam-se 300 pratos, porque há sempre visitas".
O Geoparque Açores classificou as falésias da Fajã como "geossítio de interesse regional" em 2013 — não "geo-monumentos" — mas o estatuto não mudou nada: continua a não haver rede móvel, o posto de turismo é a banca de vinhos da D. Fernanda à entrada da freguesia, e o único horário fixo é a missa das 11h de domingo. O que mudou foi a trilha: em 2019, a Associação de Moradores da Praia do Norte, com 23 associados, recebeu 15.000 € do Programa "Estradas do Mar" para consolidar os 315 degraus de basalte que descem a fajã. O trabalho foi feito à mão, com pedra extraída no próprio lugar, sob a direcção de Manuel Nunes — o mesmo que, em 1958, com 11 anos, ajudou a carregar as caixas dos vizinhos para o "Girão".
Praia do Norte não promete nada. Dá o que tem: a descida de 35 minutos, a água a 17ºC mesmo em Agosto, o sal nos lábios e a certeza — registo sísmico do CIVISA, 19 de Julho de 2023, 2h13, magnitude 2,4 — de que o chão pode voltar a tremer.