Artigo completo sobre Piedade: vinhas de pedra negra até ao Atlântico
Conheça Piedade em Lajes do Pico: vinhas protegidas por muros de basalto, baías de calhau rolado e abrigos de barcos escavados na rocha vulcânica da Ilha d
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O farol da Ponta da Ilha projecta o feixe como quem aponta uma lanterna ao quintal, rasgando o preto do Atlântico na ponta do cigarro que é o Pico. Aqui, onde a ilha acaba e o mar começa sem pedir licença, a luz da manhá pinta os currais de vinha como se fossem escadas de uma casa que desce directamente para a maré. O vento é o vizinho que nunca mais se foi embora — foi por isso que os avós empilharam tantos muros de pedra solta: mais de 500 km de muro, dizem, o suficiente para ir daqui ao Faial e voltar com um copo de verdelho na mão.
Vinho, tremor e reconstrução
A Piedade nasceu depois de 1506, sob a invocação de Nossa Senhora da Piedade. Durante séculos foi o celeiro do verdelho, aquele vinho que os ingleses bebiam em Londres como quem bebe água. Depois chegou a filoxera — o bicho que roubou o emprego à vinha — e o terremoto de 1755, que mandou a igreja ao chão como um baralho mal baralhado. A que hoje se vê é de 1749, erguida sobre os escombros da anterior: paredes caiadas que reflectem a luz como um ecrã de telemóvel ao meio-dia.
Em 1980 levaram-lhe um bocado para fazer a Ribeirinha. Ficaram os 12,8 km² e os 757 habitantes — uma aldeia que ainda vota como se as coisas dependessem disso: mais de 70% vai às urnas, apesar de haver 200 idosos para 92 jovens. É como um café onde os clientes são os mesmos há trinta anos: todos se conhecem, ninguém paga a conta ao patrão.
Pedra esculpida pelo mar
A costa é um fio de contas de chícharo: Engrade, Céu de Abraão, Caravela, Fonte. Nomes que soam a promessa de quem vai ao mar e regressa com o barco cheio. No verão enchem-se de banhistas que descem os carreiros como quem desce escadas de um prédio sem elevador. Mas o que vale a pena ver são os abrigos de barco esculpidos na pedra — buracos negros como garagens debaixo d'água, onde os antigos escondiam os botes da fúria do Atlântico. Ainda hoje parte da pesca artesanal de manhã cedo, dos portos do Calhau ou de Manhenha, seguindo o mesmo horário dos autocarros que vão à cidade: parte às cinco, regressa às nove.
Ermida de um papa recente
Na Engrade, uma ermida branca como casa nova estanca-se no meio do verde. Inauguraram-na em 2012 a São João Paulo II, cumprindo uma promessa do século XIX — coisa que só aqui faz sentido: o prometido é devido, mesmo que o santo demore cem anos a nascer. É o segundo templo açoriano com esta invocação e já serve de ponto de referência: sobem ali os veraneantes como quem sobe à padaria, só que em vez de pão vêm buscar vista para o mar e silêncio que não se compra.
Caminhar entre currais
Andar entre a Ponta da Ilha e o Calhau é entrar num labirinto de muros negros, tão altos que às vezes parecem paredes de um corredor que só leva ao mar. São pedras encaixadas sem cimento, como queixinhos de um quebra-cabeças gigante. Ainda se faz vinho ali dentro — pouco, mas faz-se: umas garrafas de verdelho que custam o mesmo que um jantar para dois em Lisboa. No caminho aparecem moinhos de vento em pedra, alguns tombados como velhos depois da festa, outros recuperados para servir de cenário a fotógrafos de casamento.
Ao cair da noite o farol volta a varrer a costa como um guarda noturno com uma lanterna de pilhas. Os currais transformam-se em silhuetas de guarda-costas negros contra o céu. O sino da igreja toca como um telefone que ninguém atende — e o mar continua ali, batendo na pedra como um cão que não se cansa de ladrar à lua. Na Piedade, a ilha acaba em pedra e espuma — e é nesse bater de portas entre a terra e a água que se percebe onde começa o fim do mundo.