Artigo completo sobre Ribeiras: onde o vinho nasce entre muros de pedra negra
Freguesia de Ribeiras une currais de vinha Património Mundial, porto baleeiro e observação de cetáce
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Cuando cae la noche, las luces del Faial se encienden como quien enciende un cigarro: una a una, sin prisa. El sonido de las olas en el espigón se mezcla con el tintineo de las copas en la taberna — verdelho en la botella, queso en el plato, charla que no paga IVA. El viento trae olor a leña de higuera y, allá al fondo, el silbido de un delfín que parece decir “quédate un ratito más”. Ribeiras no pide nada. Solo deja quedarse a quien quiere quedarse — y quien se queda, siempre se queda un poco más de lo previsto.
O vento mete-se pelas costas das pedras como quem entra à socapa no café. A maré bate no molhe, levanta espuma que parece cerveja mal tirada e depois vai-se embora, desconsolada. A luz do fim de tarde sobe os currais de vinha como quem sobe a calcetada: devagar, para não tropeçar. São muros de pedra seca que parecem feitos por quem tinha pressa de ir para o mar e deixou a paisagem em suspenso. Ao fundo, um golfinho-roaz dá um ar de sua graça — só para mostrar que ele também está no barco.
O legado de pedra e espuma
Ribeiras começou por ser um sítio onde se morava porque a ribeira dava sempre razão ao regador. Vinha-se da terra e do mar, como quem vem do emprego e do tasco: tudo ao mesmo tempo. A capela de Santa Cruz servia de ponto de encontro antes de haver freguesia — era ali que se juntava o pessoal para falar do tempo, das freguesias dos outros e de quando é que o baleeiro voltava. Quando a baleia deu cartaz, o porto ficou cheio de homens com cara de quem ia fazer um dia de 48 horas. O molhe, que foi feito no princípio do século XX, ainda mostra as cicatrizes do Lorenzo — um furacão que passou por aqui em 2019 como quem entra num bar e não paga a bebida. As obras de reparação estão prometidas desde 2021, o que quer dizer que ainda vão a meio do copo.
A igreja paroquial é do tempo em que se construía para durar e não para impressionar: frontão sem ondas, campanário que não dá flor. A Capela de Nossa Senhora da Boa Viagem fica mais perto do mar, para os pescadores não perderem tempo a correr. As casas de pedra de lava continuam de pé, teimosas como o pessoal daqui — telhados de quatro águas e canal de madeira que ainda escoa mais do que chuva: escoa história. Na Lagoa do Peixinho, a ribeira faz cascatas que servem de desculpa para as aves migratórias pararem. O trilho até à Ponta da Queimada é um jeito de ver 37 espécies de aves marinhas, mas também de perceber que o cagarro canta como quem está sempre a dizer adeus.
Vinho e mar na mesma mesa
A caldeirada chega à mesa como quem chega atrasado mas com boa desculpa: cherne e boca-negra no tomate, pimenta da terra e um golpe de verdelho que já vinha da pedra. O polvo guisado em cheiro lembra o vizinho que fala alto — não se esquece. As lapas são postas no prato ainda a dar estalos, com manteiga, alho e salsa, sobre bolo de caco que serve de prato e de pão. O queijo de Pico DOP, que na boca diz que sim mas depois pica, casa com o vinho como quem casa com a prima: já se conheciam de miúdos. Nos dias de festa faz-se molho de fígado — tomate com fígado de vaca — e os doces aparecem como convidados que não foram chamados mas são sempre bem-vindos: encharcados de ovos, suspiros, cavacas com açúcar em pasta que cola ao dente. A aguardente de figueira serve de base para licores que sabem a maracujá e a ananás, ou seja, a verão engarrafado.
Entre currais e ondas
O Trilho da Vinha são três quilómetros que se fazem em conversa: pedra seca à esquerda, canal ao fundo, miradouro para o Faial que serve de desculpa para parar. A Lagoa do Peixinho é um charco que finge ser lagoa — mas é suficiente para as aves aquáticas marcarem presença. As piscinas naturais de Santa Cruz foram escavadas pelo mar, que é o único pedreiro que não cobra. A costa é um esboroar de fajãs e pedra-pomes onde a vinha se agarra como quem se agarra a um copo no fim da noite. Mais acima, a floresta de laurissilva guarda samambaias do tamanho de guarda-chuvas e árvores que ainda não ouviram falar do tempo. A zona marítima faz parte do Santuário de Baleias — cachalotes, rorquais e golfinhos que passam o ano todo aqui, como quem tem casa na vila mas dorme no mar.
Festas que nascem da terra e do sal
As Festas do Espírito Santo são o único momento em que o império serve para mais do que guardar os panos: distribui-se sopa, fala-se com quem não se via desde o ano passado e resolvem-se as diferenças com pão na mão. A Romaria de Santa Cruz, no terceiro domingo de maio, junta procissão, missa campal e arraial onde se dança como se o chão fosse elastico. Os cânticos ao desafio e a chamarrita são a forma que o pessoal arranjou de dizer o que não se diz na missa. Em agosto, a “Noite da Tuna” reúne músicos que tocam como se o viola fosse extensão do braço — valsas açorianas e canções de marinheiro que sabem a sal e a saudade. A pesca da arraia e o fabrico de redes continuam a passar de pais para filhos, como quem passa o recibo do pão. Na Associação de Armadores ainda se aprende a fazer nós que não desfazem promessas e se tecelam tapetes de corda que servem para enfeitar a casa ou para lembrar que o mar é que manda.
Quando a noite cai, as luzes do Faial acendem-se como quem acende um cigarro: uma a uma, sem pressa. O som das ondas no molhe mistura-se com o tinir dos copos na taberna — verdelho na garrafa, queijo no prato, conversa que não paga IVA. O vento traz cheiro a lenha de figueira e, lá ao fundo, o assobio de um golfinho que parece dizer “fica mais um bocado”. Ribeiras não pede nada. Só deixa ficar quem quer ficar — e quem fica, fica sempre um pouco mais do que contava.