Artigo completo sobre São Caetano: vinhas negras entre o Pico e o mar
Currais de pedra, vinho vulcânico e festas de agosto na encosta sul da ilha do Pico
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A pedra negra ainda fuma quando o sol da tarde bate em cheio, como se o vulcão tivesse acabado de ligar o esquentador. O sal deixa crostas brancas nos muros baixos e, ao fundo, o Pico está ali tão perto que até parece má-postura — qualquer dia cai para cima de nós. São Caetano é isto: uma encosta que desce em pico (desculpem o trocadilho) até ao mar, onde cada naco de terra foi arrancado à pedra com uma determinação que mete dó.
Muros que guardam o vinho e a história
Os currais não são só pedra empilhada — são o retrato de gente que não teve outro remédio senão conversar com o vulcão. Séculos a tapar buracos, a acumular pedra preta, a fazer puzzles de basalto sem ver a caixa. O resultado é aquele mosaico negro que sobe a encosta, agora com selo da UNESCO mas antes com o selo da desenrasca. O vinho que cá nasce tem aquela acidez que faz os dentes ranger — é o sabor de quem aprendeu a fazer festa com o que o vento não levou.
A igreja e o santo de agosto
A igreja de São Caetano é como a avó: pequena, de pedra, e está sempre lá quando se precisa. Por dentro, a luz entra de esguelha como quem não quer incomodar. Em agosto, o santo faz o pessoo voltar — uns vindos do Canadá com uma mala de recordações, outros da aldeia ao lado de táxi. A procissão desce a rua como se o tempo tivesse engolido o espelho: os mesmo acordeões, os mesmos passos, o mesmo cheiro de sardinha que se agarra à roupa. São dois fins-de-semana seguidos onde 414 pessoas se transformam em mil — e depois voltam a ser 414, mas com a despensa mais cheia de conversa.
Onde a montanha toca o mar
A Pontinha das Formigas é aquele sítio onde o oceano se esqueceu de ser educado. As ondas batem com tal força que até as gaivotas se pensam duas vezes. Mas é também a varanda perfeita para olhar o Pico: ele está tão perto que se lhe vêem as rugas, as manchas de lava que parecem olheiras de quem não dorme há séculos. Ao entardecer, a sua sombra estica-se pelo mar como quem quer apanhar o último autocarro.
Caminhos entre a vinha e o vulcão
Os trilhos que sobem para a Terra do Pão são uma perna valente — começam bem, mas depois lembram-se que estamos numa ilha vulcânica e resolvem subir à bruta. Aí, os currais vão desaparecendo, dão lugar a pastagens onde as vacas olham para nós com ar de quem paga impostos. O silêncio é tão grosso que se ouve o pensamento. Cheira a terra molhada e a sal — mistura que não existe em catálogo, só aqui na fronteira onde o vulcão beijou o mar e decidiu ficar para a festa.
Quando a noite cai, as luzes da Madalena acendem-se como pontos de interrogação no escuro. E ali fica ele — o Pico, entre nós e o nada, a vigiar como um irmão mais velho que nunca dorme.