Artigo completo sobre São Mateus: Vinhas de Pedra Negra Junto ao Atlântico
Freguesia açoriana onde currais de lava protegem vinhas centenárias classificadas pela UNESCO
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A luz do Atlântico bate na costa de São Mateus com uma claridade que obriga a franzir os olhos. O basalto negro dos muros de pedra contrasta com o branco da espuma que se desfaz nas fajãs, enquanto o vento traz o cheiro a sal misturado com o verde das vinhas. Aqui, na costa sul do Pico, o mar não é apenas paisagem: é vizinho que fala alto, força que molda cada metro quadrado destes 1737 hectares onde cabem três vezes a vila da Madalena.
A freguesia estende-se ao longo do litoral, onde 675 habitantes mantêm viva a Paisagem da Vinha da Ilha do Pico, património mundial desde 2004. Os currais - chamam-lhes "curraletas" quem os constrói desde 1750 - desenham um labirinto que desce até ao mar. Dentro deles, as cepas de verdelho crescem directamente sobre a rocha, as raízes a procurar humidade nas fendas do basalto. É uma viticultura que só resulta porque o mar aquece o inverno e arrefece o verão - cada garrafa transporta o sabor mineral de uma colheita que começa em Setembro, quando os pássaros já se foram.
Entre o vulcão e o mar
São Mateus tem 39 habitantes por quilómetro quadrado, mas a realidade é mais clara: as casas dispersam-se entre a Estrada Regional que liga à Madalena e o cabo que fecha a baía. Dos 675 residentes, 167 têm mais de 65 anos - são os que se lembram de quando havia escola primária na Rua da Igreja, fechada em 2009. Agora, os 86 miúdos vão de autocarro para a EB2/3 da Madalena, muitos deles filhos de brasileiros que chegaram para trabalhar na construção civil ou nos hotéis.
Mas há quem fique. Às 7h30, António Silveira - 72 anos, 50 deles a podar vinha - desce a Canada do Cão com a tesoura de poda ao ombro. O trabalho é lento, manual, porque os trilhos entre currais têm 60 centímetros de largura. "As máquinas não entram aqui", diz, apontando para o muro que o avô ergueu sem cimento. "Isto aguenta-se porque se soubermos onde a pedra se encaixa." A técnica não mudou desde 1852, quando o phylloxera destruiu as vinhas da Europa e o Pico descobriu que o seu isolamento era uma vantagem.
A marca da lava
São Mateus integra o Geopark Açores desde 2013, mas os geólogos vêm cá desde 1957, quando a erupção da Capelinhos trouxe cientistas de todo o mundo. Aqui, a lava de 1718 - a última a tocar o mar na freguesia - formou a fajã de São Mateus, onde hoje se pesca ao pé das poças de maré. O basalto é tudo: na Igreja de São Mateus, construída em 1877, as pedras vêm das lavas de 1562; nas adegas escavadas na rocha, a temperatura mantém-se a 16 graus o ano todo.
O mar traz a luminosidade que atrai os fotógrafos - mas também a humidade que obriga a podar mais baixo, mais tarde. Quando a bruma sobe em Julho, os currais transformam-se num labirinto cinzento onde é fácil perder-se. "É a altura em que os turistas perguntam se estamos sempre assim", ri-se Maria José, que tem uma casa de campo transformada em alojamento local. "Eu digo-lhes que não - em Agosto há dias em que o céu está tão limpo que se vê o Faial inteiro."
O som da costa
O que fica de São Mateus não é uma imagem isolada. É o ruído constante das ondas na baía - onde os barcos de pesca artesanal ainda atracam ao lado do clube de natação, inaugurado em 2018. É o vento que assobia entre os muros de pedra quando o nordeste sopra a 60 km/h, obrigando os pescadores a ficar em casa. É o cheiro a maresia que impregna a roupa estendida no varal das 16h, quando o sol já desce atrás do Morro de Santa Catarina.
Às 18h30, quando a luz rasante incendeia o oceano, o Café São Mateus enche-se de rapazes que jogam às cartas. Lá fora, o silêncio não é absoluto - ouve-se o mar, sempre, e o som do último autocarro que sobe a estrada em direcção à Madalena. Amanhã voltará a mesma luz, o mesmo vento, o mesmo trabalho entre pedras que não mudam de sítio há 300 anos.