Artigo completo sobre Santa Luzia: vinhas negras sobre lava de 1718
Freguesia açoriana renascida do vulcão, onde currais de pedra protegem vinhas centenárias
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O basalto negro queima os pés mesmo à sombra. Ainda hoje, quando o sol bate em cheio, o ar treme como sobre um tacho quente — e é nesse forno que a vinha sobrevive, encolhida dentro de muros altos que parecem abraços de pedra. Cada curral é um quintal minúsculo; mede-se a terra à biqueira, não ao metro. Entre eles, o caminho é tão estreito que as tamargas roçam nas silvas e o sal que fica nos pêlos do porco-do-mar é o mesmo que incrusta os caules da vinha.
Onde a terra ardeu
Na noite de 1 de fevereiro de 1718, o céu acendeu-se de tijolo. Quem aqui vivia — poucos mais que os que hoje restam — ouviu primeiro um rosnar de madeira a partir, depois o silêncio pesado da pedra que avança. A ermida desapareceu com o som de um prato que cai: sumiu tudo, nomes, datas, promessas. Quando a lama arrefeceu, plantou-se logo ao lado um cruzeiro de madeira que durou o tempo de rezar um pai-nosso; em seguida, com pedra que ainda estava morna, ergueu-se a igreja nova. A primeira missa cheirou a enxofre e a pão queimado.
Três anos depois, o povo fundou o Império do Divino Espírito Santo não por devoção maior, mas porque era preciso inventar uma desculpa para se juntar, partilhar o pouco que havia e lembrar-se de que ainda se vivia. A lava cobriu tudo, mas deixou buracos perfeitos para enfiar as estacas da vinha. Foi assim que o Verdelho nasceu aqui: entre dois pedregulhos, com um cacho a abrir caminho como uma criança que se mete entre pernas de adultos.
Ermidas e memórias dispersas
Quem caminha entre currais perde-se logo nos nomes. Mistério Grande é o sítio onde a lava faz um desvio parecido com a cintura de uma mulher; Lajido do Meio é onde o mar, em noite de luar, soa como se estivesse mesmo ao pé da cama. A Ermida da Rainha do Mundo fica encostada a um muro tão baixo que as cabras dormem ao seu abrigo; dentro, há um quadro de Nossa Senhora com o rosto apagado pelo sal. A de São Mateus da Costa é ainda mais miúda: cabem três velhas de preto e uma criança que rouba bolachas do sacrário. Os sinos não tocam à hora certa — tocam quando o vento gira.
Caminhar sobre a pão-de-açúcar
O trilho não é trilho; é só o sítio onde ninguém plantou, porque a pedra se recusa a ceder. A caminhada começa no cheiro a murta queimada e acaba no cheiro a algas secas. A meio, há um banco de basalto polido onde os rapazes deixam arrumadas as latas de cerveja vazias — é o único sinal de que aqui passa gente mais nova. O resto são paredes que vão caindo, canteiros de erva-mole, figueiras-bravas que crescem para dentro dos currais como quem regressa a casa.
Quando o vento vem de nordeste traz o rumor das baleias que já não existem; quando vem de sudoeste, traz o eco do disco da Tia Amélia, que ainda passa fados aos sábados na padaria. São 436 pessoas, mas às vezes parecem menos: o silêncio é tão comprido que se ouve a pedra a contrair-se quando o sol se põe. E, mesmo assim, ainda se faz vinho. Não muito — umas pipas por ano —, mas suficiente para que, no dia da festa, cada copo saia com um grão de areia preta no fundo.