Artigo completo sobre Santo António: vinhas muradas e sino de 1789 no Pico
Freguesia de pedra vulcânica onde 200 km de currais delimitam vinhas classificadas pela UNESCO
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O sino da Igreja Matriz toca às sete, mas quem cresceu aqui já não precisa de relógio. O som vem escuro, de ferro fundido em 1789, e abre caminho entre os currais como quem chama os cães. Abaixo, a maresia sobe misturada ao fumo das lareiras que as mulheres acendem para o pão. O musgo não é "vegetação" - é tapete vivo que a mãe arranca todos os anos com a faca de podar vinha, antes que lide o tijolo da parede.
Em vez de 1734, ponham isto: a igreja foi erguida quando os primeiros moradores cansaram de descer a ladeira para São Roque missa afora. Trouxeram Nossa Senhora e Santo António numa carroça de bois; o santo ficou porque os cães ladram menos quando se ouve o nome dele. Em Junho, ainda se carrega a imagem até ao adro, mas quem manda agora são as crianças: elas é que seguram as velas, porque os pais estão na cozinha a virar sardinhas para as mesas de plástico que alugam à junta.
Os currais não são "200 km de muro" - são o comprimento de conversas que o meu avô dava enquanto as mãos, sozinhas, punham pedra sobre pedra. Cada muro guarda um morto: aqui o meu tio caiu da figueira, ali o Sebastião partiu a perna a saltar o muro para fugir à polícia no tempo do Estado Novo. O trilho PR05PIC é bonito nos folhetos, mas quem o faz de verdade leva 20 minutos extra: para cumprimentar o Sr. Américo que está sempre no mesmo curral, para provar uvas que ele insiste em partir com a faca suja de terra, para ouvir a história da filha que "foi para o Canadá e nunca mais mandou notícias".
A costa não tem areia, é verdade, mas tem o buraco onde a minha avô mergulhou de cabeça para salvar o chapéu que o vento levou. As piscinas naturais são três taças de lava onde as crianças aprendem a nadar antes de saber andar: água de um dia é quente, do outro é gelada, ninguém sabe porquê. Quando o mar está bravo, o barulho entra pelas janelas e as pessoas deixam de falar, só apontam com o queixo para a janela como quem diz "ouve".
O vinho de cheiro vende-se à porta de casa. Não é "verdelho ou tinto" - é o que sobrou da vindima, guardado em garrafões de plástico que estavam a servir para azeite. A placa é nova; antes era só o cheiro do mosto que escapava pela porta aberta, e quem queria sabia que podia bater. O aguardente envelhece em pipas que o meu pai roubou ao navio abastecedor - diz ele que o madeira é carvalho do Tennessee, mas ninguém acredita, nem ele.
A linguiça fuma-se em cana de ruibarbo porque a loureiro foi morrendo todos. A sopa de inhame leva toucinho salgado que a vizinha traz num saco de pano, porque "o teu porco foi mais gordo este ano, é justo". O bolo de véspera não tem receita - a massa é olhada: quando a colher fica em pé sozinha, está boa. Na sopa do Espírito Santo põe-se menos pimenta que nos outros tempos, porque os netos já não gostam, mas o pão é o mesmo: dois dias a levedar dentro do forno de lenha que só se abre de quatro em quatro horas para não "assustar" o fogo.
Em Setembro, a vindima começa quando o Albertino diz que começa. Ele tem 84 anos e é o único que se lembra do ano em que choveu tanto que as uvas rebentaram na parra. As cantigas ao desafio são agora duas senhoras e um cavaquinho desafinado, mas quando o vinho sobe a garganta o coro torna a ser inteiro. O campo de terra batida tem as traves tortas por causa do temporal de 95; os miúdos marcam golos entre as pedras porque a bola nova rebentou no primeiro remate.
Quando o sol se põe, o cheiro a lenha é o mesmo de sempre. As sombras nos cruzeiros não são "granito" - são o sítio onde o meu pai parou para me dizer que a vida era isto: olhar o mar, esperar o barco, torcer para que traga gasolina e notícias dos que partiram. O sino volta a tocar, mas agora avisa que são oito - a hora de fechar as galinhas e deitar a sopa no fogo. A névoa desce a encosta como gato velho: devagar, sem fazer barulho, até nos tapar a boca e lembrar que amanhã há mais dia.