Artigo completo sobre Angra Sé: o coração episcopal dos Açores em pedra
Centro histórico UNESCO com 128 edifícios antigos e a única catedral açoriana desde 1570
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O som dos sinos da Sé não é apenas um som - é uma vibração que se instala no peito. Às sete da manhã, quando o nevoeiro ainda não decidiu se dissolve na baía, os primeiros toques despertam as pombas que dormem nos beirais das casas da Rua da Rosa. Elas levantam-se em espiral, cinzentas contra o céu-de-prata, e nesse momento percebe-se que Angra acorda de um sono diferente do resto da ilha.
Nas costuras do centro histórico, onde as ruas se estreitam até parecerem corredores, o vento traz o cheiro exacto da maré baixa - não o sal genérico dos folhetos, mas aquela mistura específica de algas murchas e mexilhões que só existe aqui, na curva da baía onde os navios de Colombo atracaram para reparar as beiradas. As paredes caiadas não são brancas: são o branco-osso de cal misturada com areia preta, e quando o sol de Janeiro as bate durante três horas, elas exalam um calor doce que faz os gatos esticarem-se nos degraus de pedra.
Na Rua de Santo Espírito, a padaria abre às seis e meia mas é às sete e três que o pão sai do forno. Nesse minuto preciso, a Rua Direita transforma-se num tubo de aroma - massa fermentada, madeira queimada, o toque acre do fermento que se agarra ao nariz como um abraço atrasado. Dona Lurdes, que tem 82 anos e ainda sobe os 47 degraus até à sua casa no Largo da Fonte, diz que o segredo é o brioche que fazem às sextas: "Tem o mesmo sabor de quando eu ia buscar pão com a minha mãe, antes do terramoto de 80."
O terramoto. Não o de 1980 - o outro. O de 1980 foi o que partiu o relógio da igreja matriz às 16 horas e 32 minutos, mas há outro que vive na memória das pedras. É o que as pessoas se lembram quando passam pelo Largo Prior do Crato e veem o casario novo demais, demasiado direito, demasiado certo. Ali onde as casas parecem dentes de leite numa boca de anciã, percebe-se onde a terra tremeu e a cidade se partiu.
Às tardes de Verão, quando o calçamento português começa a libertar o calor acumulado, os bancos de pedra do Jardim Duque da Terceira enchem-se de homens que jogam sueca. Usam baralhos gastos, dobrados ao meio, e discutem sobre pesca com a mesma veemência com que os bispos discutiam dogmas no século XVI. As cartas batem na madeira com um som seco - tchic-tchic - que se mistura com o murmúrio das fontes e o apito ocasional de um navio que entra na baía.
O centro histórico não são apenas 128 edifícios - são 128 maneiras diferentes de a porta ranger. A da casa onde viveu o capitaín-do-mor tem um ranger que soa a queixa; a do antigo armazém de bacalhau, um ranger que soa a riso. Cada uma guarda o eco de mãos diferentes: mãos que trancaram para ir para o Brasil, mãos que trancaram para ir para a missa, mãos que trancaram pela última vez quando a velhina morreu sozinha na véspera do Natal.
No Monte Brasil, quando se sobe pelo trilho da cavalaria, o cheiro muda completamente. Primeiro é o eucalipto, depois o pinheiro, depois de repente nada - só o vento que traz o sal de outros mares. Do miradouro do Pico das Cruzetas, Angra parece uma maqueta: os telhados vermelhos como escamas de peixe, as igrejas como barcos encalhados, a baía um olho azul que pisca quando as nuvens passam. É aqui que os adolescentes vêm fumar os primeiros cigarros, sentados no muro onde dizem ter estado o vigia que avistou os piratas franceses em 1581.
Quando a noite cai depressa - porque aqui a noite não demora - as ruas do centro ganham uma acústica diferente. Os passos ecoam mais alto, as vozes transportam-se de janela para janela como bilhetes de amor. Às dez e meia, quando a última loja fecha, o silêncio é tão denso que se ouve o mar, mesmo a marés de sizígia quando a praia fica a quinhentos metros. É nessa hora que as casas começam a falar: o rangido do telhado do Palácio dos Capitães-Generais, o sussurro das palmeiras do Jardim, o tique-taque do relógio da catedral que marca os segundos com a precisão de quem sabe que o tempo, aqui, é sempre tempo de regressar.