Artigo completo sobre São Bartolomeu de Regatos: Onde a Ribeira Encontra o Mar
Freguesia terceirense entre a Serra de Santa Bárbara e o principal porto da costa sul da ilha
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A bruma da manhã ainda paira sobre a Ribeira da Ponte quando o sino da Igreja de São Bartolomeu solta as primeiras badaladas. Lá em baixo, na calheta que abriga o porto, os barcos entram com a maré — é o maior porto de pesca da costa sul da Terceira e, convenhamos, o único que acorda antes das seis sem queixas. O cheiro a maresia mistura-se com o da terra molhada e, se prestar atenção, ainda sente o travo do gasóleo dos velhos Toyota que descem para descarregar o peixe. Regatos, dizem os mais velhos, é plural por uma razão: água aqui não faltava, sobrou até para dar nome ao sítio.
Onde a água traçou o destino
Foi a Ribeira da Ponte que trouxe gente p’ra cá. Água corria em abundância, fertilizava o vale, movia moinhos e, claro, dava briga de vez em quando quando as cheias varriam as pontes. Em 1560 o lugarejo já tinha gente que chegasse para pedir freguesia própria — nascia São Bartolomeu dos Regatos. A igreja mandaram erguer com três naves, duas sacristias e torre sineira: excesso de zelo ou vontade de mostrar serviço, nunca se saberá. O terramoto de 1980 partiu-lhe os candeeiros, mas as paredes de pedra vulcânica, essas, aguentam-se teimosas como o pessoal daqui.
Hoje, os 1936 habitantes espalham-se por 2500 hectares que sobem desde o mar até à vertente leste da Serra de Santa Bárbara. A densidade é baixa — 77 hab/km² — o que significa que o vizinho não lhe chega à janela e o cão pode ladrar sem queixas do condomínio. No Núcleo Museológico, há teares que ainda funcionam se lhes derem corda. Mostram como as mães aproveitavam os invernos atlânticos para transformar linho em toalhas de bilro que agora vendem a preço de ouro aos turistas de passagem. O ranger da madeira é o mesmo de sempre; o que mudou foi o preço por metro.
Entre a floresta e o lago escondido
O Viveiro da Falca são seis hectares de camélias, azáleas e criptomérias plantadas por quem percebe que um dia há-de fazer falta sombra. Tem churrasqueiras, parque infantil e trilhos que, se os perder, dão para uma caminhada de meia hora sem rede móvel — deixe-se estar, é bom para a saúde. Mais acima esconde-se a Lagoa das Patas, vulcânica, redonda e tão silenciosa que até as gaivotas fazem um esforço. Poucos chegam lá: ou não sabem que existe, ou desistem a meio do trilho. Melhor para nós, diga-se.
Do Pico dos Frades vê-se o mar, o Monte Brasil e, em dias claros, até o vizinho que lhe deve dinheiro desde o baile de 1995. O Miradouro da Chanoca é o sítio onde se vai “só mais cinco minutos” e se fica uma hora inteira a ver o sol deitar-se. Entre um miradouro e outro, os chafarizes históricos ainda pingam água — eram o Tinder antigo: encontros marcados à boca da fonte, copo na mão e conversa que se alongava.
O peixe que chega antes do amanhecer
No porto, os pescadores despejam caixas de espadarte, carapaus e chicharros enquanto discutem o preço como quem regateia em feira. A primeira venda abastece meia ilha; quem chega depois das sete leva com as sobras. No Cais de São Bento, o restaurante serve espador ainda quente com molho de vilão e batata-doce — peça a dose inteira, depois não diga que não avisei. A proximidade de Angra faz com que aqui se durma em silêncio mas se jante com sorte: em dez minutos está na cidade classificada pela UNESCO e, se o trânsito ajudar, em quinze de volta para a cama.
No Império dos Regatos a capela do Espírito Santo guarda as cores originais: branca por fora, vermelha por dentro, como a casa da avó. A porta está trancada fora de festa, mas pela fresta vê-se o altar simples onde ainda cabem três gerações de promessas. Lá fora, a ribeira continua a correr, traçando no vale a mesma linha que os nossos avós seguiam para levar o peixe ao largo. A água nunca pára; também nós não.