Artigo completo sobre Fonte do Bastardo: água e pedra na Serra do Cume
Freguesia da Praia da Vitória onde nascentes moldaram o povoamento desde o século XVI
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O som do vento na encosta da Serra do Cume chega primeiro que a vista. Depois vêm os contornos da paisagem — pastagens verdes recortadas por muros de pedra vulcânica, o negro do biscoito a contrastar com o verde intenso da relva. Ao fundo, a linha do Atlântico corta o horizonte. Aqui, a 154 metros de altitude, a Fonte do Bastardo ergue-se numa dobra do terreno onde a água sempre ditou a geografia humana. Não é a altitude que marca este lugar, mas a presença constante da humidade — nascentes que brotam da terra porosa, ribeiras que desenham vales estreitos, a Ribeira dos Lagos a correr entre pedras cobertas de musgo.
O nome causa estranheza a quem chega de fora, mas faz todo o sentido a quem conhece a história. No início do século XVI, quando os primeiros povoadores se fixaram na encosta sul da Serra do Cume, foi uma fonte de água pura e abundante que atraiu gente das freguesias vizinhas. A Fonte do Bastardo — assim baptizada, sem que os registos expliquem a origem exacta do topónimo — tornou-se peregrinação obrigatória no Domingo de Páscoa, quando as famílias subiam a pé desde Praia para "buscar água da fonte". O que era trilho de gado transformou-se em caminho de pessoas, e o povoamento seguiu a água.
Quando a terra treme e reconstrói
A Igreja Paroquial de Santa Bárbara, inaugurada a 18 de Dezembro de 1904, domina o centro da freguesia com a sua fachada branca e as torres sineiras que se veem de longe. Mas esta é apenas a última encarnação de uma devoção muito mais antiga. A primeira igreja, erguida no lugar da Igrejinha, ruíu no terramoto de 1614. Durante 290 anos, as missas celebraram-se na ermida ou ao relento — o padre vinho a cavalo de São Brás, carregando as vestes num alforje. Quando finalmente se construiu o templo actual, foi com 12 contos de réis enviados por José de Bettencourt, natural da freguesia que enriquecera no comércio de café em São Paulo. Ainda hoje, junto ao cemitério, a ermida da antiga igreja resiste com o seu teto de madeira de cedro, testemunho silencioso do tempo em que rezar era um acto de resistência física.
A 4 de Dezembro, dia de Santa Bárbara, a freguesia acorda às 5h com o coro das bombas de gasóleo nos currais — é dia de matar o porco. Às 9h soa o sino da igreja e as mulheres começam a chegar com as suas "faixas de primeira comunhão" enroladas no braço, trazendo o pão de milho e os doces de Santa Bárbara que venderão para o altar. Mas é outra procissão que melhor define o espírito deste lugar: desde 1972, Fonte do Bastardo une-se a Porto Martins e Cabo da Praia numa caminhada de 8 quilómetros até ao Largo do Recanto. Começou quando 14 mães de soldados em Angola se juntaram para rezar o terço, caminhando na estrada municipal com as suas mantas de lã. Hoje, são centenas que fazem o percurso às 4h da manhã, com as lanternas a balouçar no escuro como barcos na baía.
Geografia de lava e água
Os solos de biscoito — lava negra solidificada em formas irregulares — marcam a paisagem entre os 100 e os 400 metros de altitude. São testemunho da erupção da Serra do Cume há 23 mil anos, quando a pahoehoe escorreu até à costa formando os campos de lavas que hoje pastoreamos. No Geoparque Açores, os geólogos vêm aqui estudar os "túneis de lava" da Gruta do Zé Grande, onde os rapazes da freguesia escondiam o milho quando vinha a fiscalização do contingente. Caminhar por aqui é pisar história geológica — cada pedra no muro, cada bloco de lava usado na construção das casas tradicionais açorianas conta 23 mil anos comprimidos numa forma sólida.
Os 1171 habitantes distribuem-se pelos 885 hectares de forma dispersa, casas que pontuam a paisagem verde sem a dominar. A densidade de 132 habitantes por quilómetro quadrado permite ainda o silêncio — esse bem cada vez mais raro. Nos caminhos de pedra que ligam as casas à igreja, ao cemitério, aos campos, ouve-se o vento, o mugir distante do gado, o correr da água nas ribeiras.
Na Rua da Igreja, dona Albertina ainda mantém o hábito de tirar água da cisterna com o balde de madeira — "água da fonte é para beber, água da cisterna é para cozinhar". A luz da tarde incide oblíqua sobre a ermida antiga, aquecendo a pedra vulcânica até esta irradiar calor. Ao longe, o Atlântico brilha como metal polido. Há qualquer coisa na persistência desta paisagem — água que continua a brotar, pedra que resiste aos sismos, gente que fica — que transforma a simples acção de estar aqui num acto de continuidade. O vento traz o cheiro a terra molhada e a sal, e percebe-se porque é que uma fonte, há cinco séculos, bastou para fixar um lugar no mapa.