Artigo completo sobre Lajes: vinhas em currais de pedra e lava vulcânica
Freguesia da Praia da Vitória onde as videiras crescem protegidas por muros de basalto na Achada
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O vento sopra transversal sobre a Planície Achada, vergando as videiras baixas que crescem agarradas à terra negra. Aqui, em Lajes, as vinhas não sobem em latadas nem se estendem em filas geométricas — escondem-se dentro de currais de pedra basáltica, protegidas do Atlântico por muros que os homens ergueram geração após geração. O sol da tarde aquece as lajes planas que afloram no solo, essas placas de rocha vulcânica que deram nome à freguesia e que, tocadas pela palma da mão, guardam o calor do dia como se fossem braseiros de pedra. Ao fundo, para leste, recorta-se a silhueta do Forte de Santa Catarina, sentinela seiscentista que vigia a baía da Praia da Vitória desde que os corsários ameaçavam estas águas.
A pedra que nomeia
O topónimo não esconde segredo: Lajes vem da abundância de lajes de basalto que cobrem o substrato da freguesia, testemunhos diretos da actividade vulcânica que moldou a Planície Achada. Povoada no século XV, beneficiou desde cedo da proximidade da vila da Praia, então centro militar do Atlântico. A Igreja Matriz de São Pedro, templo maneirista do século XVII, ergue-se no centro da localidade com o seu retábulo barroco em talha dourada e painéis de azulejo setecentista. Dentro, guardado num relicário de prata, repousa um osso de São Pedro — oferta de um navegante terceirense que regressou de Roma em 1750 e trouxe consigo este fragmento de devoção transatlântica. As casas senhoriais que ladeiam a igreja exibem varandas de madeira escurecida pelo tempo, onde o basalto cinza das paredes contrasta com os verdes intensos das hortênsias que explodem em Junho.
O vinho que se esconde do vento
Caminhar pelas Veredas da Achada é atravessar um território onde a agricultura dialoga directamente com a geologia. O trilho pedestre de quatro quilómetros serpenteia entre muros de pedra solta que delimitam os currais onde cresce a vinha de Verdelho. Este sistema único de vinha conduzida em baixo relevo, protegida por muros que quebram o vento, é uma das poucas práticas ainda vivas nos Açores. Nas pequenas quintas da freguesia, alguns produtores mantêm a vindima manual e o corte tradicional dos cachos, oferecendo provas do vinho branco que nasce desta terra vulcânica — mas não vá o senhor pensar que é fácil encontrá-los: é preciso bater à porta e perguntar com jeito. Mais adiante, a Ribeira da Areia — cujo nome não vem da praia, mas da antiga exploração de areia vulcânica usada como abrasivo em moinhos — corre entre pastagens e hortas, alimentando o moinho de água recuperado que ainda gira quando a chuva enche o leito.
Sopas do Império e caldeirada do mar
A gastronomia de Lajes equilibra-se entre o mar e a terra. Na caldeirada de peixe da Terceira, conquro, boca-negra e cherne cozinham lentamente em molho de tomate temperado com colorau e louro, enquanto o molho de fígado — ensopado de fígado de vaca com cebola e pimenta — chega à mesa em dias de festa. Durante as celebrações do Espírito Santo, na semana seguinte ao domingo de Pentecostes, distribuem-se as sopas do império em convívio comunitário aberto a quem chega. O queijo de São Jorge DOP, servido em fatias grossas ao lado de doce de figueira, acompanha o vinho local. Nos dias de São Pedro, 29 de Junho, o bolo de véspera — massa fermentada com canela e funcho — perfuma as casas antes da procissão. Se quiser experimentar o molho de fígado à séria, vá ao Café São Pedro — é lá que os locais vão quando a esposa não quer fritar em casa.
A memória da guerra e do Atlântico
O lugar conhecido internacionalmente como "Lajes Field" nasceu aqui durante a II Guerra Mundial, quando a Planície Achada recebeu o campo de aviação que se tornaria a Base Aérea n.º 4. O topónimo da freguesia viajou então para relatórios militares aliados, mapas de navegação e diários de pilotos que atravessavam o Atlântico. Hoje em dia, os aviões ainda cruzam o céu, mas já não despertam ninguém — os moradores habituaram-se ao rugido como quem se habitua ao som das ondas. O Capitão Henrique de Lajes, oficial da marinha mercante nascido na freguesia em 1885, comandou navios de cabotagem entre as ilhas e foi condecorado na I Guerra por serviços de patrulha nestas mesmas águas. Do Miradouro do Facho, a vista estende-se sobre a baía da Praia da Vitória e alcança o Ilhéu das Cabras, enquanto a costa rochosa revela piscinas naturais acessíveis por trilho de quinze minutos, onde a água fria do Atlântico bate contra o basalto negro. Leve os chinelos na mão — o caminho é de pedra e escorrega que se farta.
Quando o sol desce sobre o Forte de Santa Catarina e a luz rasante incendeia as pedras da fortificação, o vento abranda por instantes. Ouve-se então o sino da igreja de São Pedro, chamando para a missa da tarde, e o eco metálico percorre os currais de vinha até se perder na planície. Fica o cheiro a terra molhada, a sal marinho e, se for Junho, o perfume adocicado do bolo de véspera a arrefecer nos peitoris das janelas.