Artigo completo sobre São Brás: Vinhas em Curraletas e Talha Dourada
Freguesia agrícola da Praia da Vitória onde muros de pedra protegem vinhedos do vento atlântico
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O vento passa rente aos muros de pedra basáltica, um sopro constante que molda a paisagem de São Brás há séculos. Nas curraletas — pequenos currais de pedra que protegem as videiras do vento atlântico — as folhas da casta verdelho tremem ao sol. O cheiro a terra vulcânica mistura-se com o aroma adocicado das uvas em agosto, enquanto a luz rasante da tarde acende o granito negro dos muros que recortam o planalto a 182 metros de altitude. Aqui, no coração agrícola da ilha Terceira, a geografia dita o ritmo: cada curraleta é uma concessão arrancada ao vento, cada vinha uma pequena vitória sobre o Atlântico.
Pedra, fé e talha dourada
A Igreja Paroquial de São Brás ergue-se no centro da freguesia como testemunho de cinco séculos de devoção. Nasceu capela no século XVI, cresceu em talha dourada barroca e em elementos manuelinos que ainda hoje pontuam o interior do templo. Dentro, a luz filtrada pelas janelas altas ilumina retábulos onde o ouro velho brilha com a pátina do tempo. No dia 3 de fevereiro, a festa do santo padroeiro — mártir cristão do século IV — enche a igreja de vozes: missa solene, procissão, o som dos passos na calçada de basalto. A devoção atravessa gerações, une os 135 jovens aos 177 idosos que habitam estas terras. Fora, as casas de pedra basáltica, algumas com capelas privadas, formam um tecido urbano onde cada muro conta uma história de posse, de trabalho, de permanência.
O Espírito Santo e a mesa partilhada
As celebrações do Divino Espírito Santo transformam São Brás em palco de uma liturgia comunitária que mistura o sagrado e o quotidiano. Procissões serpenteiam entre quintas, sopas do Espírito Santo fumegam em panelas de ferro, o cheiro a couve e carne de porco espalha-se pelas ruas. À mesa, o ensopado de inhame com carne — denso, quente, reconfortante — dialoga com o caldo de nabos e a batata-doce assada. Nas padarias locais, as queijadas da Terceira exibem a sua massa fofa e o recheio doce, enquanto o bolo de véspera — levedado, perfumado a canela e limão — espera pelas festividades. Nas quintas onde ainda se produz vinho artesanal, o verdelho fermenta devagar em pipas de castanho, protegido pelas mesmas curraletas que os avós ergueram pedra a pedra.
Caminhos entre muros e vulcões
Percorrer São Brás é atravessar um museu vivo de arquitectura agrícola. Os muros de pedra seca desenham geometrias irregulares nos campos, delimitam propriedades, criam corredores onde o vento se acalma. Pequenos bosques de cryptomeria pontuam a paisagem, lançando sombras compridas sobre as pastagens. A freguesia integra o Geoparque Açores, território UNESCO onde a vulcanologia se lê na superfície: afloramentos basálticos e trachíticos emergem dos campos, memórias solidificadas de erupções antigas. Do planalto, a vista estende-se até à costa sul da ilha, onde o Atlântico quebra em espuma branca. Não há praias aqui — apenas trilhos rurais que ligam quintas, levadas históricas onde a água ainda corre, miradouros improvisados onde o olhar alcança o mar.
Cantigas ao desafio e violas da terra
Nos serões e arraiais que resistem ao tempo, a viola da terra — instrumento de doze cordas e afinação única dos Açores — empresta melodia às cantigas ao desafio. Dois cantadores improvisam versos, desafiam-se em rimas, enquanto a assistência acompanha entre risos e palmas. Com 1035 habitantes em 4,68 km², São Brás mantém estas tradições vivas nos bares da Rua da Igreja e nas festas de Santo António. É uma cultura que se transmite pelo gesto, pela repetição, pela presença física. Nas curraletas, entre videiras que os bisavós plantaram, o silêncio só é quebrado pelo vento e pelo canto distante de um cagarro ao entardecer.
O sol poente incendeia os muros de basalto, transformando-os em linhas negras contra o céu alaranjado. Nas curraletas, as videiras projectam sombras curtas sobre a terra vulcânica. O vento — esse velho companheiro — continua a passar, levando consigo o cheiro a uva madura e a promessa de vindima próxima.