Artigo completo sobre Alfeizerão: terra de estufa, pêra e trabalho agrícola
Freguesia de Alcobaça onde a Pêra Rocha amadurece entre campos hortícolas e pomares certificados
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O cheiro da terra não é metafórico — é o composto de fertirrigação que se agarra à roupa quando o vento muda para nascente. A estufa do Sr. Joaquim, a primeira à esquerda na estrada para o Juncal, tem o plástico rasgado desde o temporal de outubro. De dentro vêm os gritos das trabalhadoras que cortam alface ao ritmo de uma música brasileira da RFM, os joelhos molhados de orvalho, os dedos dormentes de tanto frio. Alfeizerão acorda antes das seis, mas quem acorda são elas — as brasileiras, as ucranianas, as mulheres de Vestiaria que apanham o jipe às cinco e meia na rotunda. A estrada nacional não é cicatriz nenhuma; é o que há. De um lado os campos do Coelho (os que o pai herdou ao avô), do outro o pomar novo plantado em 2019 com fundos europeus — a Pêra Rocha ainda está a crescer, tem troncos finos como canas de pesca.
A geografia do cultivo
Os 438 jovens não estão aqui. Estão em Lisboa, em Leiria, no exército, no call-center. Os 1136 idosos é que continuam a marcar passo: o Zé Mário com as costas partidas de tanto carregar caixotes, a dona Albertina que ainda vai ao campo de xadrez mas já não consegue curvar-se para amarrar os tomates. A Maçã de Alcobaça que se fala nos papéis é a mesma que a Elisabete vende no Facebook Marketplace — 5 euros o saco de 5 quilos, entrega em mão na bomba da BP. A ginja vem de uma tiria que o pai da Paula plantou quando ela nasceu; agora é ela que engarrafa o licor aos sábados, entre uma mamada do bebé e o jantar dos miúdos. O azeite é de facto do Ribatejo — o marido da Paula é de lá, trouxe as oliveiras como dote.
O calcário não é influência geológica nenhuma. É o que se arranca sempre que se abre um buraco para plantar uma cova — pedras brancas que partem as pás, que o tractor atira para o lado da estrada, que depois aparecem nos muros das casas novas como decoração de quem não tem dinheiro para reboco.
Passagem e permanência
O Caminho de Torres passa aqui sim, mas ninguém lhe chama isso. É o "caminho dos espanhóis" — uns quantos gajos com mochilas coloridas que aparecem em maio, pedem água à porta da casa da Glória, fazem xixi no canto do pomar. Não há albergue, não há café — há a máquina de vendas da Coca-Cola na estação de servício, mas está desligada desde 2018. Os 47 alojamentos são quartos que as pessois arranjaram para pagar o crédito da casa — um deles é o sótão da Céu, tem ar condicionado e um colchão novo, 30 euros no Booking. O Mosteiro é o que é: fica a 8 quilómetros, custa 10 euros para entrar, tem WC público limpo.
O património classificado é a fonte da Carrasca — não tem estatuto nenhum, mas é o que há. Pedras de granito encostadas umas às outras, água que corre o ano todo, onde as raparigas iam lavar a roupa quando ainda não havade máquinas. Agora é onde os cães bebem e onde os miúdos atiram pedras aos sapos.
O sabor da certificação
A gastronomia é o que sobra. A pêra que cai no chão e não serve para exportar — essa é que é doce, com buraquinhos da mosca, que escorre pelo queixo quando morde. A ginja vem em garrafas de água de 2 litros, com o rótulo impresso em casa, colado com cola branca. O azeite é o que se vai buscar à cooperativa de Benedita, no bidão de 5 litros que depois se vai repondo nas garrafinhas de vidro de compota. A certificação DOP serve para o cliente de Lisboa pagar mais 50 cêntimos — aqui é tudo "pêra do pé" e "azeite nosso".
Ao fim da tarde, quando as brasileiras apanham o jipe de regresso a Vestiaria, quando o trator do Zé Mário finalmente para, Alfeizerão fica com o silêncio dos cães cansados. O plástico da estufa rasgada faz barulho de bandeira quando o vento vira. Amanhã há que estar às seis na rotunda — a Elisabete já tem 15 sacos de pêra encomendados.