Artigo completo sobre Cela: onde a fruta certificada cresce no limiar calcário
Freguesia de Alcobaça produz Pêra Rocha DOP e Maçã IGP entre pomares e afloramentos geológicos
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O granito das casas aquece ao sol da tarde, mas é o cheiro do forno de lenha na Rua da Igreja que avisa que são quatro e meia. Aqui não há relógios: há o pão que sai todos os dias, excepto à segunda. Nas encostas que descem para os vales, os pomares estendem-se sem pressa — pereiras com os ramos tão baixos que as crianças saltam para as alcançar, macieiras cujos troncos guardam as iniciais dos netos que já não cá vêm. A 155 metros de altitude, entre o planalto calcário e as terras baixas do Oeste, Cela respira ao ritmo das regas: quando o Canal do Alviela abre, corre-se para os campos de mangueiras abrir as comportas.
Pêra Rocha que se prova no pé
Não são pomares quaisquer: são 400 hectares de Pêra Rocha que só aqui tem aquela areia na boca — experimente uma ao lado de uma comprada no supermercado e percebe. A colheira começa na segunda semana de Agosto e é dinheiro na mão: 60 cêntimos por caixa de 18 quilos, se tiver calibre 60. As escadas de aluminio batem nos ramos com um som que se reconhece aos quilómetros; nas carrinhas, os rapazes pôem os pés fora da janela para secar o suor. O cheiro adocicado da fruta madura mistura-se com o da cana-de-açúcar queimada — é o que resta dos canteiros que separavam as propriedades, agora substituídos por rede preta que nem os javalis passam.
Onde a terra cai em buracos
A norte, a estrada municipal 509 termina no Casal do Pão — depois é só mato e pedra. A proximidade ao maciço kárstico marca a geologia local: na Fonte Nova, a água desaparece num olho que ninguém mediu. O senhor António, do café O Pátio, lembra-se de ter descido 15 metros de corda quando era novo, mas voltou porque "o ar muda ali para baixo". O território integra o Geopark Oeste, mas quem cá vive chama-lhe é "o carrasco" — é onde se vão os burros, as bolas de futebol e, no Verão passado, um tractor novo.
O Caminho de Torres passa aqui, mas os peregrinos desviam-se para Pedreiras — em Cela não há albergue, só a pensão da Dona Lúcia que faz jantar se levar avisso de manhã. Os muros de pedra solta estão a cair: quem os manteve foi para o Brasil ou para a fábrica da Autoeuropa. Sobram os marcos de granito com a cruz de Santiago, mas está escrito "1987" — ano em que o João da horta ganhou três contos num totoloto e mandou fazer.
Onde se vai quando se vai
Os números dizem 3075, mas isso conta os que estão inscritos no Junta, não os que cá estão. Na verdade são menos 400 — os apartamentos em Lisboa não se pagam com a reforma de 460 euros. A relação entre gerações inclina-se para o lado dos mais velhos, mas os mais velhos morrem. Sobram as casas fechadas com caixilharia azul: quando uma abre, é filho ou neto que vem de França passar 15 dias e deixa a porta aberta para arejar o bolor.
O único monumento classificado é a Igreja Matriz de Cela, mas a verdadeira arquitectura identitária está no largo onde se juntam os homens às nove da manhã — é ali que se decide quem vai para a vindima em Pagosas, quem precisa de um ajudante para apanhar azeitona, quem vai ao centro de saúde de Alcobaça porque aqui só há enfermeira às quartas. O forno comunitário ainda fumega aos sábados: é a Dona Alice que faz o pão de levedura mãe que o filho levou quando emigrou para Newark. Ela diz que o segredo é a água da cisterna — "a da torneira tem cloro, mata tudo".
Ao entardecer, quando a luz se põe atrás do canteiro onde o senhor Joaquim ainda tem duas colmeias, o som do sino da Igreja de Nossa Senhora da Conceição propaga-se pelos vales. É nessa hora que se ouvem os tractores a voltar da apanha, as mulheres a chamar os netos para o jantar, o silêncio que não é silêncio — é o intervalo entre o último grilo e o primeiro cão. Cela não se revela: é só isso, todos os dias, enquanto houver quem saiba que a Pêra Rocha se prova no pé e não na câmara de comércio.