Artigo completo sobre Turquel: entre minas de carvão e lagares cistercienses
Freguesia de Alcobaça onde o passado mineiro convive com pomares e lagares de dois séculos
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O cheiro a lenha queimada mistura-se com o aroma adocicado da ginja a fermentar nos tonéis. No centro de Turquel, a mó de pedra do lagar de azeite gira devagar, esmagando azeitonas numa roda que conta já dois séculos de vindimas. As ruas estreitas descem em calçada irregular até ao vale do Alcoa, onde a água corre entre muros de pedra seca e sobreiros centenários. Aqui, a 180 metros de altitude, o calcário aflora em cada esquina, nas fachadas caiadas, nos muros das quintas, nas dolinas que se abrem de súbito no meio dos pomares.
A herança dos monges brancos
Turquel nasceu sob o domínio do Mosteiro de Alcobaça, no século XII, quando os monges cistercienses ergueram granjas e levadas para domesticar o vale. O nome vem do latim turricula — pequena torre — memória de uma atalaia medieval que vigiava o caminho entre a Nazaré e a serra. As quintas que ainda hoje pontuam a paisagem — a Cova da Onça, o Lameirão, a Gafa — foram todas desenhadas por mãos de frades brancos, com casais de pedra e chafarizes onde os pastores dessedentavam o gado. A antiga cerca do Mosteiro estendia-se até aqui, delimitada por muros que persistem intactos em algumas propriedades, testemunhas silenciosas de uma ordem que desapareceu em 1834 mas deixou a geometria do território.
Carvão debaixo dos pés
Entre 1920 e 1940, Turquel viveu uma vida dupla. À superfície, os pomares de macieiras e pereiras; no subsolo, galerias escuras onde homens arrancavam carvão mineral da rocha. As minas do Casal de Vale de Ventos e do Moinho de António Carreira chegaram a produzir cem toneladas por dia, abastecendo as fábricas de cimento de Alhandra e Leiria. Os poços abandonados ainda se vêem, buracos negros no meio do mato, escombreiras cobertas de urze. É um dos poucos lugares do país onde se pode tocar neste passado industrial improvável, num território que parece ter nascido apenas para a agricultura.
O paladar do couto
Na tasca do Zé Manel, a ginja serve-se em copos de chocolate que derretem na língua. É a mesma receita que os monges destilavam nos alambiques do Mosteiro, agora protegida por IGP. Nos pratos, a herança cisterciense traduz-se em ensopado de borrego, chanfana de cabrito, açorda de sardinha temperada com coentros do quintal. Ao doce, os pastéis de Santa Clara e o toucinho-do-céu repetem gestos conventuais. Na feira semanal, as bancas empilham Maçã de Alcobaça IGP e Pêra Rocha do Oeste DOP, colhidas nos pomares que descem até à Levada. O azeite prensado no lagar antigo leva o selo DOP dos Azeites do Ribatejo, espesso e verde como o musgo das pedras do rio.
Caminhos de pedra e água
A Levada do Alcoa é um corredor verde que liga Turquel ao Mosteiro em três quilómetros de caminhada entre choupos e salgueiros. O Trilho Solancis serpenteia entre muros de pedra seca, atravessando bosques de sobreiros onde o silêncio só quebra com o grito da coruja-das-torres. No Cabeço do Vento, o miradouro abre sobre a Serra de Aire, um mar de calcário cinzento onde o vento assobia entre as fendas do lapiás. A freguesia integra o Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros e o Geopark Oeste — território de grutas, dolinas e fósseis de amonites que afloram nos taludes dos caminhos. É também ponto de passagem do Caminho de Torres, variante portuguesa da rota jacobeia, marcado por setas amarelas que guiam os peregrinos até Óbidos.
A tarde cai devagar sobre Turquel. No lagar, a última prensagem do dia liberta um fio de azeite verde que escorre para o alguidar de barro. Lá fora, o sino da igreja bate seis vezes, ecoando no vale até se perder no murmúrio da água.