Artigo completo sobre Pousaflores: aldeia serrana no ritmo dos peregrinos
Freguesia de Ansião onde o Caminho Central Português atravessa 2527 hectares de pinhais e silêncio
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O granito da calçada ainda guarda o frio da madrugada quando os primeiros passos ecoam na rua principal de Pousaflores. São 802 habitantes que se conhecem todos — e que, às 7h30, já sabem quem foi ao café do Sr. Joaquim comprar o pão quente. A luz da manhã desenha sombras compridas nos muros de xisto, e o fumo de uma lareira sobe direito no ar parado — sinal de que o vento ainda não desceu dos 288 metros de altitude onde a freguesia se acomoda no território de Ansião.
Terra de Passagem e Permanência
Quem caminha o Caminho Central Português ou o Caminho de Fátima atravessa Pousaflores sem pressa. Aqui, a seta amarela pintada no muro da casa da D. Rosa — onde ela nasceu em 1934 — indica o caminho certo. Não há multidões: com 31 habitantes por km², encontrar outro peregrino é motivo para trocar impressões sobre bolhas nos pés. As oito moradias que servem de alojamento local não estão no Booking — estão na memória de quem já passou e recomendou "àquela casa com a porta azul, onde a dona faz ovos estrelados com azeite da quinta".
A geografia explica o carácter do lugar. Nos 2527 hectares que compõem a freguesia, a terra ondula em vales discretos onde o ribeiro de Pousaflores — que deságua no Nabão — marca o tempo por estações. O pinheiro-bravo que cobre as encostas foi plantado depois de 1930, quando o Estado Novo mandou reflorestar as serras. Antes, era pasto para as ovelhas que desciam do Caiaço em Maio e subiam em Outubro, tal como o avô do António — que hoje tem 78 anos — ainda se lembra de fazer.
O Peso dos Anos
Cinquenta crianças e 319 idosos contam a história demográfica de Pousaflores sem necessidade de palavras. A escola primária, construída em 1953, tem hoje 12 alunos — em 1978 tinha 147. Nas ruas, o movimento concentra-se às 11h30, quando a missa na Igreja de Nossa Senhora da Conceição — erguida em 1897 sobre uma capela do século XVI — acaba e os homens vão para o café. O resto do tempo, a aldeia respira ao ritmo lento de quem sabe que o correio chega às 14h30 e que o médico vem à terça-feira.
A vida aqui organiza-se em torno do essencial. Não há restaurantes — há a mercearia da D. Albertina onde se pode pedir para aquecer o almoço, se ela estiver de boa disposição. O fumeiro funciona na cave do Zé Manel, onde o chouriço cura desde Novembro com carne do porco que se matou no dia de São Martinho. O pão de centeio que ainda se faz no forno comunitário — aceso cinco vezes por ano, quando há festa ou baptizado — é esse que a Céu aprendeu a fazer com a mãe, que aprendeu com a avó, que já não se lembra de quem lhe ensinou.
O Que Fica
Às 18h30, quando a luz rasante bate nas fachadas caiadas, Pousaflores parece suspensa entre dois tempos. Não é nostalgia — é a consciência física de que este lugar existe numa escala diferente, onde o ano se mede pelas romarias: 15 de Agosto, Nossa Senhora da Assunção, quando os emigrantes regressam e a aldeia duplica de tamanho. Quem aqui passa no Caminho leva na memória o som dos próprios passos na calcada onde, em 1974, se queimaram as palhas do PIDE. E quem fica — os 802 que aqui vivem — conhece o privilégio silencioso de acordar onde o horizonte ainda se vê sem obstáculos, onde a noite é suficientemente escura para as estrelas brilharem todas — tal como brilhavam quando, em 1941, o black-out obrigava a apagar os candeeiros e os aviões alemães passavam rumo a Lisboa.