Artigo completo sobre Carvalhal: onde os pomares ditam o calendário do Oeste
Freguesia do Bombarral vive ao ritmo da Pêra Rocha DOP entre colinas de fruta e olivais centenários
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O granito da eira ainda queima os pés descalços quando o sol se deita atrás do Monte do Carvalhal. Aqui não há colinas — há montes pequenos, aqueles que as crianças sobem de olhos fechados para não ver o cemitério no cimo. Os pomares organizam-se como sempre: primeiro as pereiras das Eiras, depois as macieiras do Chão da Venda, tudo em patamares que o avô dizia ser "terra de vinho se lhe déssemos guarida". A 82 metros, dizem as cartas. Mas o que importa é que se vê a Serra de Aire ao longe quando a atmosfera está límpida — e isso acontece depois da chuva, quando o céu fica lavado e até se cheira o mar que não está lá.
O peso das peras
A Pêra Rocha nasceu aqui antes da DOP. O meu tio dizia que era "a fruta que partia os galhos" — e partia, literalmente. Em Agosto, os ramos faziam um estalo seco que se ouvia na noite quieta. Hoje é tudo diferentes: rede por baixo, toldos por cima, e os tractores da Cooperativa do Cadaval passam às sete da manhã com as caixas verdes já empilhadas. Mas o cheiro continua o mesmo: aquele doce adstringente que se agarra à roupa quando se passa com a janela aberta, entre as 17h30 e as 18h00, antes das máquinas de refrigeração começarem a rugir.
Dos 2393 habitantes, 768 têm mais de 65 anos. São números que não dizem nada até se ir à missa das 11h de domingo e se ver o padre a improvisar com três coros de velhas que se sentam sempre no mesmo banco. Mas há vida: os quartos que se alugam no Airbnb — 32, segundo a Câmara — estão cheios em Maio, quando os alemães vêm ver as orchideas selvagens nos muros de pedra. Pagam 80 euros por noite e perguntam onde se pode comer coelho à caçador. Responde-se que no Café Central, mas é preciso encomendar com antecedência porque a D. Lurdes só faz para quatro pessoas no mínimo.
Pedra que fala
O cruzeiro da Pedreira não está classificado — mas devia estar. Foi ali que o meu bisavô jurou que via a alma da mulher que morreu no parto, e até hoje ninguém passa lá à meia-noite sem se persignar. A pedra é granito de Martinchel, aquele que fica escuro quando chove. Nas ombreiras das portas, o granito vem de outro lugar — dizem que vinha de barca pela Ribeira de Cadima, quando ainda havia água para levar pedra. Hoje é um regacho seco onde os putos vão fumar os primeiros cigarros.
Ginja caseira
A ginjeira é árvore de quintal. A minha avó tinha duas: uma dava fruta para o licor, outra para as crianças comerem com sal (ficavam com a boca mais vermelha que depois de morderem um lápis de cor). O licor faz-se com aguardente da Lourinhã e açúcar mascavado. Deixa-se na talha de barro que foi da bisavó, na cave, durante seis luas. Não há receita escrita — vai-se sentindo. O copo é de plástico duro, daqueles que vinham com o leite em pó, e bebe-se de um trago só, antes do jantar, para "abrir o estômago".
Terra que se parte
Faz parte do Geopark, sim senhor. Mas o que isso quer dizer é que se pode encontrar amonites no meio da vinha — aquelas pedras com caracol dentro que os miúdos partem com pedras maiores. O calcário está em todo o lado: nas mãos das mulheres que trabalham a terra, no sabor da água da cisterna, na maneira como as couves crescem rápidas demais. À hora em que as luzes se acendem — primeiro a do Zé Manel, depois a da D. Graça, sempre em sequência — o ar fica com um cheiro a lenha de sobreiro que se mistura com o fermento das peras que caíram e ninguém apanhou. É nessa altura que se ouve o cão do Ti Silva a ladrar para o campo vazio, e se sabe que o dia acabou.