Artigo completo sobre Roliça: onde a batalha de 1808 moldou o Oeste
Freguesia do Bombarral entre pomares de Maçã de Alcobaça e memórias das Invasões Francesas
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A estrada sobe suavemente entre pomares de macieiras e pereiras, os ramos carregados de fruto que a luz da tarde torna quase dourados. Ao fundo, o vale abre-se numa sucessão de colinas baixas onde o verde das vinhas se mistura com o ocre da terra revirada. Roliça estende-se neste anfiteatro natural a sessenta metros de altitude, longe do bulício da costa mas suficientemente próxima para sentir a brisa atlântica que, ao fim do dia, traz consigo o cheiro a sal e a terra húmida.
Dois monumentos e uma batalha
O património classificado resume-se a dois Imóveis de Interesse Público: a igreja matriz de São Tiago, reconstruída após o terramoto de 1755, e o chafariz de 1785 na Praça da República. Roliça carrega no nome o peso da Batalha de Roliça - a primeira vitória anglo-portuguesa das Invasões Francesas, travada a 17 de Agosto de 1808 nos campos entre Roliça e Columbeira. Wellington, então ainda Sir Arthur Wellesley, liderou 14 mil homens contra os 4 mil franceses do general Delaborde. A memória persiste na estrada que atravessa o antigo campo de batalha e naquela que os locais ainda chamam "Rolinha" - o monte onde as tropas britânicas se posicionaram.
A freguesia vive hoje do que a terra lhe oferece. Os pomares estendem-se por boa parte dos seus 2263 hectares, produzindo Maçã de Alcobaça IGP e Pêra Rocha do Oeste DOP — frutos que, entre Agosto e Outubro, enchem as caixas à porta da Cooperativa Agrícola de Bombarral, fundada em 1956. Nos quintais, as ginjeiras dão os bagos escuros que alimentam a produção da Ginja de Óbidos e Alcobaça IGP, licor que se bebe nos copos de chocolate da Fábrica da Ginginha de Óbidos, instalada no antigo celeiro da Quinta do Freixo desde 1989.
O quotidiano entre pomares e vales
Com 2545 habitantes e uma densidade de 112 pessoas por quilómetro quadrado, Roliça mantém o ritmo próprio das freguesias rurais do Oeste. Os números dos Censos de 2021 revelam uma população envelhecida — 757 idosos para 291 jovens —, mas a vida pública resiste no Café Central, na pastelaria Rosa, nas missas dominicais às 11h30 e no mercado mensal de 7 em 7. Os vinte e dois alojamentos turísticos espalhados pelo território — desde a Casa da Eira na Rua da Igreja até às casas de campo do Monte Novo — acolhem visitantes que procuram a tranquilidade dos campos e a proximidade ao Geopark Oeste, onde se destacam os afloramentos jurássicos da Serra do Bouro e as pegadas de dinossauro de Serra d'El-Rei.
Caminhar por Roliça é atravessar um território onde a agricultura ainda dita o calendário. Em Março, a floração dos pomares cobre os vales de branco e rosa; em Setembro, o cheiro a mosto domina quando as uvas Fernão Pires e Vital chegam à Adega Cooperativa. A Estrada Nacional 8-4 liga a freguesia ao Bombarral em 5 minutos de carro, serpenteando entre muros de pedra seca construídos pelos nossos avós e os portões de ferro enferrujado das quintas herdadas.
A espessura do silêncio rural
Não há multidões, nem filas, nem selfies obrigatórias. O nível de visitação mantém-se baixo — trinta pontos numa escala de cem —, garantindo que quem aqui chega encontra os campos vazios e os caminhos rurais onde só se cruzam tractores John Deere e 107's da Renault. A dificuldade logística é mínima: basta vir pela A8 até Bombarral e depois seguir as indicações para Roliça, passando pela rotunda onde está o tanque da guerra.
Ao crepúsculo, quando a luz rasante acende os telhados de telha de canudo e alonga as sombras dos ciprestes que protegem as casas do vento norte, o vale de Roliça adquire uma densidade particular. O vento traz o tinir distante do sino da igreja que toca às 19h30, o ladrar do Bobi do Sr. António, o motor do tractor do Zé Manel que regressa do campo da Lagoa. É nesse momento — entre o dia que termina e a noite que se anuncia — que a freguesia revela a sua verdadeira natureza: não a de um cenário de postal, mas a de um território vivo, moldado pelo trabalho de gerações que plantaram estes pomares e pela persistência de quem escolheu ficar quando o banco fechou em 2015.