Artigo completo sobre A dos Francos: entre pomares de pera rocha certificada
Freguesia agrícola nas Caldas da Rainha onde a fruticultura molda a paisagem desde a Idade Média
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O aroma a pera madura paira sobre os pomares que desenham o território de A dos Francos em tabuleiros regulares, pontuados pelo verde intenso das folhas e pelo branco-rosado das flores na Primavera. Aqui, a cinco quilómetros do centro das Caldas da Rainha, a terra organiza-se numa geometria agrícola que se estende até onde a vista alcança, interrompida apenas pelo casario disperso e pelas manchas de eucalipto que marcam os limites das propriedades.
A freguesia deve o nome aos colonos francos que aqui se fixaram na Idade Média, trazendo consigo técnicas agrícolas que transformaram estes 1944 hectares numa das zonas mais férteis do concelho. O solo argiloso, a abundância de água e o clima temperado criaram condições ideais para a fruticultura que ainda hoje define a paisagem e o calendário local. A Pêra Rocha do Oeste, protegida por denominação de origem, amadurece nos pomares entre Agosto e Setembro, quando as caixas de madeira se empilham junto às estradas e o movimento nos armazéns de fruta acelera.
Terra de frutos e memória
O único monumento classificado da freguesia — um Imóvel de Interesse Público — ergue-se discreto entre as casas, testemunho silencioso de camadas anteriores de ocupação. Mas é nos campos que a história se lê com maior clareza: na disposição das levadas que canalizam água para os pomares, nos muros de pedra calcária que delimitam parcelas, na arquitectura funcional dos armazéns agrícolas onde a fruta é seleccionada e embalada.
A população de 1632 habitantes distribui-se numa densidade baixa — menos de 84 pessoas por quilómetro quadrado — o que confere ao território um carácter simultaneamente rural e permeável. As dez unidades de alojamento local, entre apartamentos e moradias, ocupam construções tradicionais adaptadas, oferecendo a quem chega a possibilidade de acordar com o canto dos galos e o murmúrio distante dos tratores nos pomares.
Sabores certificados do Oeste
A gastronomia ancora-se nos produtos certificados da região: a Pêra Rocha do Oeste DOP, de polpa firme e sumarenta, a Maçã de Alcobaça IGP, com a sua acidez equilibrada, e a Ginja de Óbidos e Alcobaça IGP, licor denso e doce que se bebe em copinhos de chocolate. Nos quintais, as árvores de fruto convivem com hortas onde crescem couves, feijão-verde e tomate, ingredientes que chegam directamente à panela sem intermediários.
A freguesia integra o percurso do Caminho de Santiago da Costa, que atravessa o concelho das Caldas da Rainha em direcção a norte. Os peregrinos que passam por aqui encontram um troço tranquilo, longe da azáfama turística, onde o ritmo se mede pelo esforço dos músculos e pela sucessão de pomares, pinhais e pequenas capelas junto ao caminho. O território faz também parte do Geopark Oeste, reconhecido pela UNESCO, embora a elevação modesta — cerca de 52 metros acima do nível do mar — não ofereça os espectáculos geológicos dramáticos de outras zonas do geoparque.
Nos dias de colheita, o movimento intensifica-se: escadas encostadas aos troncos, mãos que escolhem apenas os frutos no ponto certo, conversas trocadas em voz alta entre as filas de árvores. À tardinha, quando a luz dourada raspa os pomares e projecta sombras compridas sobre a terra batida, o silêncio volta a instalar-se, interrompido apenas pelo farfalhar das folhas e pelo ladrar distante de um cão. É nesse momento — fruto maduro na mão, sumo escorrendo pelos dedos — que A dos Francos se revela no que tem de mais essencial: terra que alimenta, trabalho que perdura, estações que regressam.