Artigo completo sobre Landal: 80 mil codornizes por semana nas planícies de Óbidos
Freguesia agrícola onde nascem quatro em cada cinco codornizes consumidas em Portugal
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O cacarejar das codornias, que soa mais a assobio de quem não sabe assobiar, é o despertador de Landal. Às seis da manhã parece que o telefone está a tocar em todo o lado — mas é só a planície a lembrar que, destas aves, quatro em cada cinco que chegam ao prato dos portugueses nasceram aqui. Dá para visitar as instalações, mas marque primeiro: não é parque temático, é fábrica de bicharocos que corre 24 horas, 80 000 por semana, contadas como quem conta os escudos no café.
A terra que virou codorniz
Landal vem de landa, "campo" em latim — e pronto, é isto. Esteve dentro de Óbidos até 1890, depois mudou-se para o concelho das Caldas como quem muda de mesa na esplanada: leva a cadeira, deixa as redes. Continuou a plantar cereais e fruta, mas o negócio que sustenta hoje o orçamento da Junta são as aves. Dizem que, quando o primeiro aviário abriu, o sogro do presidente da Junta achou que eras galinholas para a Festa da Senhora da Saúde. Enganou-se: eram codornias, e agora há quem lhes chame "o ouro branco do Oeste". (Só que o ouro não caca, este caca — e muito.)
Onde a densidade é luxo
92 habitantes/km² é outra maneira de dizer "dá para respirar". São 248 senhores com mais de 65 anos — muitos ainda fazem as hortas de rega com água da barragem de Alviela — e 112 miúdos que vão à escola básica em Santa Catarina e ao secundário nas Caldas, a 7 km. Quer dizer: conhecem o Uber antes de conhecerem o autocarro. Entre as poucas casas há caminhos de terra batida onde o Google Maps desiste; siga o cheiro a estrume ou o rumor das máquinas de embalar que soam a marimba distante.
Fruta com selo e ginja da vizinhança
Pera Rocha e Maçã de Alcobaça nascem no mesmo solo calcário — e na mesma conversa. O produtor explica logo: "Se a macieira não levar uma mordida de serra, não fica doce." A Ginja de Óbidos, essa, vem de lá em baixo, mas o licor entra aqui pelas garrafas de 200 ml que os aviários oferecem aos veterinários no Natal. Não há restaurante com estrelas; há um café que faz tostas com presunto e ovo de codornia estrelado em cima — é o prato do dia, mas só se o Sr. António se lembrar de os trazer.
Peregrinos que passam, serra que fica
O Caminho da Costa vai ali ao lado. Muitos peregrinos enganam-se na bifurcação, param à sombra do eucalipto e perguntam: "Isto é Óbidos?" — "É quase", responde-se, "mas aqui não há lojas de chocolate com canhão." Oferece-se água da torneira, aponta-se o atalho para a serra e despacha-se com jeito: "Sigam o cheiro a eucalipto e ao estrume, quando começar a subir já sabem que chegaram." Quem fica por cá apanha o fim-de-tarde: o sol bate na fachada branca da igreja, o cacarejar reduz, e percebe-se enfim por que é que 938 pessoas não trocam isto por nenhum centro comercial.
Às cinco e meia, quando o turno muda nos aviários, o som sobe outra vez — não é o hino da freguesia, mas funciona: avisa que Landal ainda está acordada, a produzir aquelas aves que metem conversa em todo o lado, menos nos postais.