Artigo completo sobre Paúl de Tornada e a Duna Gigante de Salir do Porto
Entre o humidal Ramsar e a maior duna de Portugal, duas aldeias guardam história e natureza viva
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O vento da manhã cheira a maresia e a limo quente. Nos caniçais do Paúl de Tornada, as garças erguem-se devagar, tão brancas que doem os olhos, enquanto o rio faz glu-glu entre os juncos. Às sete e meia, o Sr. Joaquim atravessa a ponte a empurrar a bicicleta; as patas de espargos que trouxe no cesto ainda pingam água do barco. Do outro lado, a duna de Salir do Porto já aquece — trinta minutos de caminhada sobre areia solta que se cola entre os dedos e depois se vai com a maré.
Entre o paul e o oceano
O trilho do paul não tem dois quilómetros e meio; tem o tempo que cada um leva a encontrar o sapinho-leopardo escondido debaixo da folha de nenúfar. À tarde, o cheiro a enxofre mistura-se com o do eucalipto queimado no pires do Zé Manel, que vem de São Martinho pescar enguias com o neto. A água doce encontra a salgada num estalar que se ouve antes de se ver: é a barra a abrir-se, a deixar entrar o primeiro golfo de maré que sopra o cheiro a algas para dentro da ria.
A memória das caravelas
Na Alfândega, já não restam paredes — só uma pedra com um entalhe de amarrar barcos e, ao lado, uma figueira que nasceu no meio do chão batido. Diz a D. Lurdes que aqui se cortou madeira para um navio do filho do vizinho, mas ninguém sabe se partiu para Marrocos ou se ficou encalhado na areia. A ponte sobre o Tornada é mais estreita do que parece: quando passa a carrinha do pão, os peões colam-se à ameia e sentem o cheiro a fermento quente que vem do forno da Benedita, a cinco quilómetros.
Ginja, enguias e pêra rocha
A enguia tem de ser do dia, senão fica a saber a barro. O Zé Manel ensina: corta-se ainda viva, salga-se, deixa-se sangrar, depois vai para a panela com alho espremido e um ramo de coentros do quintal. Enquanto ferve, a vizinha desce com um saco de pêra rocha tamanho 10 — as que não servem para vender vão para o doce, as que caíram no chogo são para a compota. Na romaria de Dezembro, a malta come sopa de nabos em pé, com a boca a queimar e as mãos a fumegar, porque as bancas de plástico estão todas lotadas e o cálice de ginja custa um euro na tenda da Ana, que aquece os copos ao balde antes de servir.
Linha do Oeste, linha do tempo
O comboio das 17h42 para Óbidos leva quinze minutos a sair da estação: primeiro o maquinista acena ao Sr. António, depois pára para deixar passar a cadela da Amélia, enfim arranca com um guincho que assusta as andorinhas. Dentro, cheira a jacarandá seco e a bagaço de figo esmagado no chão. Quando passa na curva, vê-se a duna toda marcada com pegadas de crianças que hoje não há-de apagar a maré — são as escolas da vila, que vieram de autocarro fazer o percurso "rio-duna-praia" antes do fim do ano letivo.
A última luz põe o paul cor de mel. No miradouro da Capela de Santa Ana, o vento traz o cheiro a alecrim e a carvão do churrasco do Nuno, que veio de Lisboa para o fim-de-semana. Ao longe, o apito do comboio das 19h30 corta o silêncio como uma tesoura de papel: breve, agudo, já a desvanecer-se.