Artigo completo sobre Campelo: Vida a 598 Metros na Serra de Leiria
191 habitantes resistem nas encostas de Figueiró dos Vinhos, entre o xisto e o silêncio da altitude
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A estrada sobe em ziguezague, tão estreita que os ramos dos pinheiros esfregam na lataria. Primeiro cheira a resina, depois a eucalipto, depois a nada. A 598 metros, o ar muda de sabor: mais seco, com um travo a xisto que se agarra à garganta. Campelo aparece num descampado — nove casas espalhadas como dados lançados por mão distraída, cada uma com o seu adro de terra batida onde o vento roda sem encontrar ninguém.
A matemática que não fecha
Dos 191 que constam no papel, metade já não cá dorme. Os que ficaram têm a idade das oliveiras centenárias que ainda produzem. Treze crianças correm entre os bancos de pedra da escola que fechou há cinco anos — agora é casa da Dona Amélia, que conserva tomate em agosto e faz pão no forno comunitário quando o tempo permite. A proporção é cruel: para cada miúdo, seis velhos que se lembram de quando aqui havia café, papelaria, uma bola a quicar na estrada.
O território é um quebra-cabeças de vales e cabeços. O xisto estremece ao sol e escorrega na chuva. Quando o nevoeiro desce, engole até as torres da igreja — um cubo branco de 1748 que ainda não perdeu o telhado, apesar do temporal de 96. As cicatrizes dos incêndios não são manchas negras: são terras onde o medo ficou plantado. Em 2017, o fogo parou a cinquenta metros da última casa, de tal forma que ainda hoje se sente o cheiro a madeira queimada quando o vento vira a norte.
Subir e descer como ofício
Viver aqui é ter gémeos de aço. O caminho para a horta do Sr. Joaquim exige quinze minutos de subida por degraus de xisto que escorregam de dezembro a março. As couves crescem de cabeça para o vale, como se quisesem fugir. A água da levada chega-se em canos de barro que estalam à noite — o som que avisa: "Aqui ainda há gente."
As casas de granito têm paredes que ainda guardam o cheiro do fumeiro de outrora. Nas pocilgas vazias, as ferramentas do avô pendem de pregos enferrujados — uma enxada com o cabo lascado, uma foice que ninguém afia há dez anos. As janelas seladas com tábuas escondem o que não se quer ver: um sofá florido, um calendário parado em setembro de 2019, uma garrafa de aguardente meio bebida.
O que sobra quando tudo falta
O correio chega às terças e às sextas, mas nem sempre. Quem precisa de pão vai à Figueiró antes das oito, senão fica sem. O GPS engana-se tantas vezes que os estafetas desistiram — agora telefonam desde a vila: "Vou subindo, aparece na porta." Ao cair da tarde, quando a luz se agarra aos ciprestes do cemitério, o silêncio é tão grosso que se corta com a faca de peixe.
Mas há dias em que o vale respira. Quando o João regressa do Luxemburgo em agosto, o cheiro do chouriço assa na brasa e as risadas sobem pela encosta abaixo. A Dona Amélia traz bolos de arroz quentes no tabuleiro de alumínio. As crianças — essas treze que parecem trinta — descobrem a ribeira como se fosse o Amazonas. Por uma noite, Campelo deixa de ser um ponto no mapa e torna-se o sítio onde o tempo se fez líquido, escorrendo entre os dedos enquanto se conta a história daquela vez que o alpendre aguentou a neve de 54.