Artigo completo sobre Nazaré: o rugido ancestral da arte-xávega no Atlântico
Pescadores puxam redes ao amanhecer, feiras no areal e lendas no alto da falésia
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O som chega antes de tudo o resto. Um coro grave, ritmado, quase gutural — «hai-ó, hai-ó» — sobe do areal ao amanhecer, quando dezenas de homens puxam os cabos da rede de quinhentos metros para terra. A arte-xávega desenrola-se na areia molhada da Praia da Nazaré como se o século XXI ainda não tivesse chegado a esta faixa de costa. Os pés afundam-se na areia grossa, o ar cheira a sal e a alga fresca, e o primeiro clarão de sol rasante ilumina as costas curvadas dos pescadores. Ao fundo, mulheres de avental esperam pelo lance com cestos de verga, prontas para o pregão que, ao cair da tarde, transformará o próprio areal num leilão de voz alta — robalo, safio, conquilhas, tudo apregoado sem microfone, só com pulmão e prática.
Falésia, foral e o fantasma do maremoto
A Nazaré cresceu agarrada à falésia. Antes de ser estância balnear, antes de ser cidade — estatuto que obteve em 1912 —, era uma comunidade de pescadores que já existia provavelmente antes do século XII, amontoada no topo do promontório que domina o Atlântico. O primeiro foral, concedido por D. Manuel I em 1514, deu-lhe dignidade de vila, mas foi sempre o mar quem verdadeiramente governou. O topónimo vem de longe: uma imagem da Virgem, trazida por monges na época da Reconquista, remete para a Nazaré da Palestina e ancora a identidade do lugar numa devoção que dura há séculos. Em 1755, o sismo e o maremoto que devastaram Lisboa chegaram também aqui, destruindo parte da vila baixa. A comunidade refugiou-se no Sítio, no cimo da falésia, e ali permaneceu — como se a pedra fosse mais fiável do que a areia.
Pedra, azulejo e a vertigem de D. Fuas
Subir ao Sítio pelo ascensor panorâmico é trocar a horizontalidade do areal por uma verticalidade abrupta. Lá em cima, a Capela da Memória marca o ponto exacto onde, em 1182, D. Fuas Roupinho terá sido salvo de uma queda na falésia pela intercessão da Virgem — a lenda fundadora que sustenta toda a devoção nazarena. A capela é pequena, quase íntima, com paredes revestidas de azulejos que contam o milagre em tons de azul-cobalto. A poucos passos, o Santuário de Nossa Senhora da Nazaré, erguido entre os séculos XIV e XVI, guarda a imagem milagrosa e painéis de azulejos setecentistas onde a luz entra filtrada e morna. Do Miradouro do Suberco, a cento e dez metros de altitude, o olhar despenca sobre a praia inteira e, para norte, sobre o promontório onde se ergue o Forte de S. Miguel Arcanjo — baluarte quinhentista que hoje serve de miradouro sobre as ondas gigantes da Praia do Norte.
O canhão que faz tremer a costa
A cinco quilómetros da costa, invisível à superfície, uma ravina submarina — o Canhão da Nazaré — canaliza a energia do oceano e gera ondas que ultrapassam os trinta metros. Foi aqui que Garrett McNamara, a partir de 2011, colocou a Nazaré no mapa do surf de ondas gigantes, e que Maya Gabeira estabeleceu o recorde mundial feminino. Entre Outubro e Fevereiro, a Praia do Norte transforma-se num anfiteatro de espuma branca e rugido surdo, onde a água embate nas falésias fósseis e nos blocos de gnaisse com uma violência que se sente no peito antes de se ver com os olhos. A Nazaré oferece assim duas praias de temperamento oposto: a Praia, de areal extenso e mar mais contido, e a Praia do Norte, onde o Atlântico não faz concessões.
Sete saias, caldeirada e cavacas crocantes
Na vila baixa, o casario tradicional mantém a gramática visual da Nazaré antiga: paredes caiadas de branco com listas azuis e vermelhas, varandas de ferro forjado onde a roupa seca ao vento. É uma das poucas localidades portuguesas onde o traje tradicional ainda se usa no quotidiano — as sete saias de cores vivas, concebidas para arejar o corpo e secar depressa quando a maré molhava as pernas das mulheres que esperavam os barcos. Na Romaria de Nossa Senhora da Nazaré, a oito de Setembro, essas saias saem em força: procissão com andas, bombos, cânticos ao desafio e ranchos que exibem mandilões e lenços bordados. A Festa de Nossa Senhora dos Aflitos, na primeira segunda-feira após a Páscoa, leva a procissão ao mar, num barco que percorre a costa.
À mesa, a Nazaré é sal e brasa. A caldeirada mistura robalo, cherne, safio, tomate e pimentão num tacho de barro que chega à mesa a fumegar. O polvo, à lagareiro ou estufado, disputa espaço com a sardinha assada e o arroz de marisco. Para sobremesa, as cavacas — bolo de ovo crocante, coberto de açúcar que estala entre os dentes — e as ferraduras de massa folhada com canela. Acompanha-se com licor de Ginja de Óbidos e Alcobaça IGP, ou com a frescura de uma Maçã de Alcobaça IGP e de uma Pêra Rocha do Oeste DOP, que crescem nos pomares do interior próximo.
Trilhos, lagoas e o caminho dos peregrinos
A pé ou de bicicleta, a ciclovia marginal conduz ao Farol e ao Forte de S. Miguel. O trilho que liga a Nazaré a São Martinho do Porto estende-se por onze quilómetros ao longo de falésias onde o Geopark Oeste revela afloramentos cretácicos e, mais adiante, pegadas de dinossauro. A lagoa de Valbom e Pederneira, a pouca distância, oferece silêncio e aves migratórias na foz do Alcoa. É também por aqui que passa o Caminho da Costa de Santiago — peregrinos cruzam-se com pescadores e surfistas numa sobreposição de propósitos que só faz sentido junto ao mar.
A Nazaré alberga dez mil e trezentos habitantes, distribuídos por pouco mais de quarenta e dois quilómetros quadrados, com mil e quinhentos alojamentos que vão do apartamento ao quarto com vista para o areal. A densidade — duzentos e quarenta e seis habitantes por quilómetro quadrado — adensa-se na vila e dilui-se nos pinhais e nas arribas.
O último pregão
Ao fim da tarde, quando a luz se torna cor de laranja queimado e as sombras das varandas de ferro se alongam sobre a calçada, o leilão de peixe recomeça no areal. Uma voz sobe acima do rumor das ondas, oferece um lote de conquilhas, espera, repete. É esse som — não o rugido das ondas gigantes, não o badalar do sino do Santuário — que fica gravado na memória de quem passa mais do que uma tarde na Nazaré. O pregão de uma vendedeira que não precisa de amplificação, apenas de mar e de gente que ainda saiba ouvir.