Nazaré
Pedro Nuno Caetano · CC BY 2.0
Leiria · CULTURA

Nazaré: o rugido ancestral da arte-xávega no Atlântico

Pescadores puxam redes ao amanhecer, feiras no areal e lendas no alto da falésia

10 394 hab.
81.1 m alt.

O que ver e fazer em Nazaré

Património classificado

  • IIPCapela de Nossa Senhora dos Anjos
  • IIPErmida da Memória
  • IIPFarol da Nazaré
  • IIPForte de São Miguel Arcanjo
  • IIPIgreja da Misericórdia da Pederneira

E mais 3 monumentos

Produtos com Denominação de Origem

Festas e romarias em Nazaré

Janeiro
Procissão das Luminárias Epifania (6 de janeiro) festa religiosa
Julho
Festival da Canção da Nazaré Último fim de semana de julho festa popular
Setembro
Festa de Nossa Senhora da Nazaré 8 de setembro romaria
ARTIGO

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Pescadores puxam redes ao amanhecer, feiras no areal e lendas no alto da falésia

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O som chega antes de tudo o resto. Um coro grave, ritmado, quase gutural — «hai-ó, hai-ó» — sobe do areal ao amanhecer, quando dezenas de homens puxam os cabos da rede de quinhentos metros para terra. A arte-xávega desenrola-se na areia molhada da Praia da Nazaré como se o século XXI ainda não tivesse chegado a esta faixa de costa. Os pés afundam-se na areia grossa, o ar cheira a sal e a alga fresca, e o primeiro clarão de sol rasante ilumina as costas curvadas dos pescadores. Ao fundo, mulheres de avental esperam pelo lance com cestos de verga, prontas para o pregão que, ao cair da tarde, transformará o próprio areal num leilão de voz alta — robalo, safio, conquilhas, tudo apregoado sem microfone, só com pulmão e prática.

Falésia, foral e o fantasma do maremoto

A Nazaré cresceu agarrada à falésia. Antes de ser estância balnear, antes de ser cidade — estatuto que obteve em 1912 —, era uma comunidade de pescadores que já existia provavelmente antes do século XII, amontoada no topo do promontório que domina o Atlântico. O primeiro foral, concedido por D. Manuel I em 1514, deu-lhe dignidade de vila, mas foi sempre o mar quem verdadeiramente governou. O topónimo vem de longe: uma imagem da Virgem, trazida por monges na época da Reconquista, remete para a Nazaré da Palestina e ancora a identidade do lugar numa devoção que dura há séculos. Em 1755, o sismo e o maremoto que devastaram Lisboa chegaram também aqui, destruindo parte da vila baixa. A comunidade refugiou-se no Sítio, no cimo da falésia, e ali permaneceu — como se a pedra fosse mais fiável do que a areia.

Pedra, azulejo e a vertigem de D. Fuas

Subir ao Sítio pelo ascensor panorâmico é trocar a horizontalidade do areal por uma verticalidade abrupta. Lá em cima, a Capela da Memória marca o ponto exacto onde, em 1182, D. Fuas Roupinho terá sido salvo de uma queda na falésia pela intercessão da Virgem — a lenda fundadora que sustenta toda a devoção nazarena. A capela é pequena, quase íntima, com paredes revestidas de azulejos que contam o milagre em tons de azul-cobalto. A poucos passos, o Santuário de Nossa Senhora da Nazaré, erguido entre os séculos XIV e XVI, guarda a imagem milagrosa e painéis de azulejos setecentistas onde a luz entra filtrada e morna. Do Miradouro do Suberco, a cento e dez metros de altitude, o olhar despenca sobre a praia inteira e, para norte, sobre o promontório onde se ergue o Forte de S. Miguel Arcanjo — baluarte quinhentista que hoje serve de miradouro sobre as ondas gigantes da Praia do Norte.

O canhão que faz tremer a costa

A cinco quilómetros da costa, invisível à superfície, uma ravina submarina — o Canhão da Nazaré — canaliza a energia do oceano e gera ondas que ultrapassam os trinta metros. Foi aqui que Garrett McNamara, a partir de 2011, colocou a Nazaré no mapa do surf de ondas gigantes, e que Maya Gabeira estabeleceu o recorde mundial feminino. Entre Outubro e Fevereiro, a Praia do Norte transforma-se num anfiteatro de espuma branca e rugido surdo, onde a água embate nas falésias fósseis e nos blocos de gnaisse com uma violência que se sente no peito antes de se ver com os olhos. A Nazaré oferece assim duas praias de temperamento oposto: a Praia, de areal extenso e mar mais contido, e a Praia do Norte, onde o Atlântico não faz concessões.

Sete saias, caldeirada e cavacas crocantes

Na vila baixa, o casario tradicional mantém a gramática visual da Nazaré antiga: paredes caiadas de branco com listas azuis e vermelhas, varandas de ferro forjado onde a roupa seca ao vento. É uma das poucas localidades portuguesas onde o traje tradicional ainda se usa no quotidiano — as sete saias de cores vivas, concebidas para arejar o corpo e secar depressa quando a maré molhava as pernas das mulheres que esperavam os barcos. Na Romaria de Nossa Senhora da Nazaré, a oito de Setembro, essas saias saem em força: procissão com andas, bombos, cânticos ao desafio e ranchos que exibem mandilões e lenços bordados. A Festa de Nossa Senhora dos Aflitos, na primeira segunda-feira após a Páscoa, leva a procissão ao mar, num barco que percorre a costa.

À mesa, a Nazaré é sal e brasa. A caldeirada mistura robalo, cherne, safio, tomate e pimentão num tacho de barro que chega à mesa a fumegar. O polvo, à lagareiro ou estufado, disputa espaço com a sardinha assada e o arroz de marisco. Para sobremesa, as cavacas — bolo de ovo crocante, coberto de açúcar que estala entre os dentes — e as ferraduras de massa folhada com canela. Acompanha-se com licor de Ginja de Óbidos e Alcobaça IGP, ou com a frescura de uma Maçã de Alcobaça IGP e de uma Pêra Rocha do Oeste DOP, que crescem nos pomares do interior próximo.

Trilhos, lagoas e o caminho dos peregrinos

A pé ou de bicicleta, a ciclovia marginal conduz ao Farol e ao Forte de S. Miguel. O trilho que liga a Nazaré a São Martinho do Porto estende-se por onze quilómetros ao longo de falésias onde o Geopark Oeste revela afloramentos cretácicos e, mais adiante, pegadas de dinossauro. A lagoa de Valbom e Pederneira, a pouca distância, oferece silêncio e aves migratórias na foz do Alcoa. É também por aqui que passa o Caminho da Costa de Santiago — peregrinos cruzam-se com pescadores e surfistas numa sobreposição de propósitos que só faz sentido junto ao mar.

A Nazaré alberga dez mil e trezentos habitantes, distribuídos por pouco mais de quarenta e dois quilómetros quadrados, com mil e quinhentos alojamentos que vão do apartamento ao quarto com vista para o areal. A densidade — duzentos e quarenta e seis habitantes por quilómetro quadrado — adensa-se na vila e dilui-se nos pinhais e nas arribas.

O último pregão

Ao fim da tarde, quando a luz se torna cor de laranja queimado e as sombras das varandas de ferro se alongam sobre a calçada, o leilão de peixe recomeça no areal. Uma voz sobe acima do rumor das ondas, oferece um lote de conquilhas, espera, repete. É esse som — não o rugido das ondas gigantes, não o badalar do sino do Santuário — que fica gravado na memória de quem passa mais do que uma tarde na Nazaré. O pregão de uma vendedeira que não precisa de amplificação, apenas de mar e de gente que ainda saiba ouvir.

Dados de interesse

Distrito
Leiria
Concelho
Nazaré
DICOFRE
101102
Arquetipo
CULTURA
Tier
vip

Habitabilidade e Serviços

Dados-chave para viver ou teletrabalhar

2023
ConectividadeFibra + 5G
TransporteEstação de comboio
SaúdeHospital no concelho
EducaçãoEscola secundária e básica
Habitação~2059 €/m² compra · 7.48 €/m² renda
Clima15.9°C média anual · 836 mm/ano

Fontes: INE, ANACOM, SNS, DGEEC, IPMA

ADN da Aldeia

50
Romance
65
Familia
45
Fotogenia
40
Gastronomia
40
Natureza
35
Historia

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Perguntas frequentes sobre Nazaré

Onde fica Nazaré?

Nazaré é uma freguesia do concelho de Nazaré, distrito de Leiria, Portugal. Coordenadas: 39.6179°N, -9.0373°W.

Quantos habitantes tem Nazaré?

Nazaré tem 10 394 habitantes, segundo os dados dos Censos.

O que ver em Nazaré?

Em Nazaré pode visitar Capela de Nossa Senhora dos Anjos, Ermida da Memória, Farol da Nazaré e mais 5 monumentos classificados. A região também é conhecida pelos seus produtos com denominação de origem.

Qual é a altitude de Nazaré?

Nazaré situa-se a uma altitude média de 81.1 metros acima do nível do mar, no distrito de Leiria.

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