Artigo completo sobre Amoreira: pão de forno e amoreiras junto ao Atlântico
Amoreira, em Óbidos, Leiria, é uma freguesia rural com forno comunitário, ribeira, moinhos abandonados e Igreja de Nossa Senhora da Conceição.
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O cheiro a lenha queimada chega antes da aldeia. Vem do forno comunitário, aberto às quartas-feiras e aos sábados, onde o António deixa o pão levedar desde as 4 da manhã e só o tira quando a crosta estalar. Mistura-se com o aroma adocicado das amoreiras que deram nome ao lugar — ainda há três no largo da igreja, plantadas em 1952 para substituir as que a tempestade de 1941 derrubou.
A ribeira de Amoreira corta o território de nascente a poente, desenhando zonas húmidas temporárias onde a garça-real pousa imóvel entre os juncos. É um fio de água discreto, quase tímido, mas que durante séculos alimentou dois moinhos de pedra: o do Sapo, que moía trigo até 1963, e o da Ribeira, convertido em adegas particulares. Os muros de tapada em pedra de cal e xisto continuam a delimitar propriedades como fronteiras ancestrais escritas na paisagem — medem 1,20m de altura média e consomem 800 toneladas de pedra por quilómetro.
Quando a amora deu nome ao lugar
O topónimo vem do latim Amoraria, e não é figura de estilo: as amoreiras cresceram aqui durante séculos, adaptadas ao clima e ao solo da Costa de Prata. A paróquia foi oficialmente reconhecida em 1423, mas há documentos de 1338 no Arquivo Distrital de Leiria que já registam o nome "Amoraria" — grafia que se manteve até 1732, quando o cartógrafo João Teixeira Albernaz escreve "Amoreyra" no seu mapa do Reguengo de Óbidos. A Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Conceição, reconstruída em 1878 depois do terramoto de 1755 ter dançado a torre, guarda o retábulo barroco de 1724 e 16 painéis de azulejo com episódios da vida da Virgem, encomendados ao atelier de Gabriel del Barco. Ao lado, a capela de São Sebastião, com 8 por 12 metros, recebe em 20 de janeiro a procissão em que 40 habitantes sobem pelo caminho de terra batida para pedir protecção às vinhas — tradição que se perdeu em 1997 com a última videira.
Amoreira tem 5,2 habitantes por km² (Censos 2021), a densidade mais baixa do concelho depois de A dos Negros. Do miradouro do Cruzeiro, a 82 metros de altitude, vê-se a Lagoa de Óbidos a 7 km e as Berlengas em dias limpos — mas só se estiver de pé às 9h30, quando o sol ainda não cria reflexos na água.
O que se come entre a ribeira e o pinhal
O ensopado de enguias da ribeira leva 12 enguias de 30 cm, coentros do quintal do Sr. Aníbal e alho da terra — coze-se 2 horas em panela de barro que a mulher do Zé Manel ainda faz em Vau. O arroz de tomate com sardinha grelhada é invenção recente: começou em 1987 quando o restaurante O Pinhal precisou de prato rápido para os turistas que vinham ver a Lagoa. O cabrito estonado no forno da D. Rosa leva 3 horas a 180ºC — o segredo é a vinhaça que rega de hora em hora.
Nos doces, a "esquecida" é doce de ovos com 12 gemas por quilo de açúcar, enrolado em papel vegetal que a Adelaide corta com 15 cm — aprendeu com a mãe que começou a vendê-las em 1954 na feira de Caldas. Os bolinhos de amora levam 200g de polpa congelada porque a época é maio e as festas são em agosto. A Ginja de Óbidos que se serve na Tasquinha vem de 300 cerejeiras plantadas em 1932 no campo da Feiteira — produzem 800 garrafas por ano, cada uma com 14 frutos.
Pedalar até ao pinhal
O Trilho da Amoreira (PR1) marca-se com pintura amarela e verde desde 2017. São 6,2 km que começam no portão lateral da igreja, passam pelo moinho do Sapo (agora em ruínas com apenas a rodagem de 1,80m intacta) e terminam no largo onde o coreto ficou entornado desde 1998. A ciclovia que liga Amoreira à Praia do Bom Sucesso tem 4,3 km de alcatrão e 1,2 km de terra batida — leva 25 minutos a pedalar devagar, com o cheiro a maresia a começar no km 3, logo depois do pinhal onde o Ventura plantou 5000 árvores em 1976.
Em setembro, a vindima participativa começa às 9h na vinha do Sr. Alfredo: 30 cestos de 20 kg cada, depois magusto com castanhas da Serra da Vigia e moscatel de 2022 que ainda tem 11% vol. No atelier de cerâmica, o Rui replica azulejos do século XVIII — demora 45 minutos por peça, usa barro da pedreira do Casal do Coelho e queima a 980ºC. Vende-os 25€ cada, mas só faz 3 por semana.
Quando o sol desce sobre os campos e a luz rasante ilumina os muros de pedra, o fumo do forno volta a subir — é a lenha de sobreiro que o António cortou em março, agora reduzida a brasas que aquecem o último pão do dia.