Artigo completo sobre Santa Maria, São Pedro e Sobral: cal, vinhas e ginja
Três aldeias unidas em Óbidos, entre muralhas medievais, olivais e a lagoa que toca o mar
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A cal branca das paredes rebate o sol da manhã com uma claridade que faz ranger os olhos. Nas ruas estreitas, os sapatos batem na calçada irregular - pedra polida que escorrega quando chove e que conhece o peso dos carrinhos de mão do mercado semanal. Na Rua Direita, a padaria deixa escapar o cheiro do pão de milho que sai agora mesmo do forno, misturado com o aroma doce da ginja que alguém está a servir ali ao lado. O cheiro é tão intenso que se sente na boca antes de se beber. Para lá das muralhas, a planície estende-se até à Lagoa - mas quem está dentro da vila só adivinha a água pelo vento que traz o sal e o cheiro a algas.
Esta é Santa Maria, São Pedro e Sobral da Lagoa, a maior freguesia do concelho de Óbidos. Trinta e sete quilómetros quadrados onde os campos de trigo ondulam como o mar, os olivais têm árvores que ainda lembram o tempo dos avós, e as vinhas separam as parcelas com linhas de eucaliptos que assobiam quando o vento é de norte. Em 2013 juntaram-se três freguesias que pouco tinham em comum - a vila dentro das muralhas que vive do turismo, Sobral da Lagoa com a sua praça onde os homens ainda vão à conversa ao fim do dia, e a zona da antiga mina onde as pessoas se mudaram para trabalhar e nunca mais saíram.
Pedra que conta séculos
O Castelo de Óbidos está lá desde sempre - ou pelo menos desde 1148, quando Dom Afonso Henriques expulsou os mouros. Mas o que importa é que as suas pedras ainda aquecem ao sol de inverno e guardam o frio do verão. Quem sobe às ameias sente o vento a cortar o rosto e vê a terra verdejante até ao Mar de Enxara e até à Lagoa, onde os pássaros parecem pontos negros. Dentro das muralhas, a Igreja de Santa Maria tem um altar de talha dourada que se ilumina todo quando o sol entra pelas janelas da tarde. A de São Pedro é mais simples - e é ali que os velhos se encontram para as missas dominicais, cumprimentando-se com um aceno de cabeça. Em Sobral da Lagoa, os moinhos de vento já não viram mas ainda marcam o caminho para quem vem do campo. A Capela de São Brás no Largo de Santo António é pequena demais para a devoção grande que ainda ali vai - especialmente na romaria de maio, quando se come sardinha assada na rua.
Ginja em copo de chocolate
A Ginja de Óbidos não é só para turistas - é o que se bebe antes do almoço no Tasco da Praça, onde o Zé serve logo duas se percebe que está frio. O copo de chocolate derrete na boca depois de se beber o licor - e ninguém deixa migalhas. Nas traseiras da vila, a D. Rosa ainda faz a dela com as cerejas do quintal, mas guarda as garrafas para os netos. A verdade é que há ginja e ginja - a boa é aquela que faz cócegas na garganta e aquece o estômago. Mas a comida não é só isso: há o caldeirada de enguias da Lagoa que a Dona Fernanda faz com pão de milho frito, o ensopado de borrego de que gosta o presidente da Junta (que come com tremoços), e as sopas de hortelã que se comem no verão quando o trigo está a ser debulhado. A Maçã de Alcobaça vem de lá de cima, mas a Pêra Rocha é daqui mesmo - e prova-se em setembro, quando está madura e a cair dos ramos.
Entre o campo e a água
A Lagoa de Óbidos é salgada por baixo e doce por cima - e quem nela nadou sabe que o frio é de cortar a respiração. Mas é ali que se vai apanjar percebes na maré baixa, e é ali que os barcos de pesca saem para as redes de solha. Os caminhos de terra batida que a rodeiam escondem fragas de silvas e pinheiros mansos - e é por ali que se vai quando se quer estar sozinho. O Geopark é um nome bonito para o que sempre foi: pedras que contam que o mar já esteve aqui, falésias que se desfazem em mãos, e uma planície tão plana que se vê o Farol da Berlenga nos dias claros. Os campos de Sobral e A-da-Gorda são bancos de areia antigos - e as oliveiras de tronco retorcido provam que as águas lá estiveram. A onze metros de altitude, o céu parece mais alto porque não há nada a impedir de se ver longe.
Tradições que resistem
Santo André a 30 de novembro é o dia em que se vai à missa e depois come-se o bolo de fiambre caseiro - ninguém sabe bem porquê, mas faz-se sempre assim. Nossa Senhora dos Milagres no Arelho é em agosto e é aí que se junta toda a gente: os que vieram de fora, os que nunca saíram, e os que só aparecem para os comes e bebes. A Rota do Presépio no Natal é novidade - mas as lapinhas feitas de musgo e de flores secas já se faziam nas escolas antigas. O que não falta são festas: há a da senhora da saúde, a da senhora do carmo, a do senhor dos passos - cada santo tem a sua e cada uma tem o seu folar. São tradições que não precisam de ser explicadas: são o que se faz porque sempre se fez, e é assim que vai sendo.
Quando o sol se põe atrás das muralhas, a pedra fica cor de mel e as sombras alongam-se pela calçada. O sino da igreja toca sete badaladas - e quem está longe sabe que são sete e meia. O som perde-se nos campos, mistura-se com o coaxar das rãs da Lagoa e com o latido dos cães que já conhecem todos os passantes. Fica no ar como um aviso: há lugares onde o tempo não passa - apenas se vai dormir, para no dia seguinte tudo continuar igual.