Artigo completo sobre Usseira: vento, aqueduto e pomares no alto de Óbidos
Freguesia a 168m de altitude onde um aqueduto renascentista liga nascentes a Óbidos há cinco séculos
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A primeira coisa que se ouve, ao chegar à Usseira, é o vento. Não o vento do mar — esse fica a quinze minutos, nas praias do Baleal — mas o vento que varre os campos altos, onde a vista alcança a Serra d'El-Rei de um lado e a mancha azul da Lagoa de Óbidos do outro. A povoação repousa a 168 metros de altitude, dispersa entre pomares de macieiras e pereiras, muros de pedra seca e moinhos parados. O silêncio quebra-se com o ladrar distante de um cão, o sino da capela ou o estalar de um ramo seco. É uma freguesia jovem no papel — criada oficialmente em 1989, desanexada de São Pedro — mas antiga na memória: romanos, árabes e cavaleiros de D. Afonso Henriques deixaram marcas nesta terra conquistada em 1148.
Água que corre há cinco séculos
O Aqueduto da Usseira, mandado erguer por D. Catarina de Áustria por volta de 1570, estende-se por três quilómetros de arcaria visível — mas a água percorre seis no total, desde a nascente local até ao Chafariz da Praça de Santa Maria, no interior das muralhas de Óbidos. Classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1962, o aqueduto serpenteia pelo Vale dos Arcos. A nascente continua a jorrar água fresca, rodeada de vegetação riparia onde crescem samambaias. É possível seguir o trilho de pedra que acompanha os arcos, caminhando entre muros cobertos de líquenes até entrar em Óbidos pela Porta da Senhora da Piedade.
Como chegar: Estaciona na estrada municipal que atravessa a Usseira. O acesso ao aqueduto está assinalado com placas de madeira. O percurso até Óbidos demora 45 minutos a pé.
Santa Luzia e o púlpito de pedra
A capela de Santa Luzia fica no centro da freguesia. O interior guarda um púlpito seiscentista de pedra lavrada, notável pela finura da cantaria, que terá vindo do extinto convento de São Miguel das Gaeiras. A romaria anual em honra de Santa Luzia reúne antigos e novos habitantes: missa, procissão, música tradicional e mesas postas ao ar livre onde circulam enchidos caseiros, pão de milho ainda morno do forno e copos de ginja. A vida social concentra-se nos arraiais, bailes promovidos pelas associações locais e na época da matança do porco — momento de convívio comunitário onde se preparam chouriços, morcelas e farinheiras.
Quando ir: A romaria de Santa Luzia realiza-se no segundo domingo de dezembro. A missa começa às 10h30.
Maçãs, peras e ginja em copo de chocolate
A paisagem ondulante da Usseira é pomar e vinha. Aqui crescem a Maçã de Alcobaça IGP e a Pêra Rocha do Oeste DOP, frutos que amadurecem sob o sol de verão e podem ser compridos directamente aos produtores — procure os sacos de rede à beira da estrada municipal, com preços entre 2-3€/kg. À mesa, a cozinha reflecte a matriz rural do Oeste: sopas de hortelã, ensopados de borrego, cozido à portuguesa servido em dias de festa. Os bolinhos de noz e as tortas de laranja continuam a ser feitos pelas avós, mas o que marca a identidade gustativa da região é a Ginja de Óbidos — licor IGP de cereja macerada em aguardente, servido em copo de chocolate (1€) ou acompanhando queijadas (0,60€). Nos dias frios, a feijoada da matança aquece o corpo: come-se devagar, em volta da mesa comprida, enquanto lá fora o vento continua a varrer os campos.
Onde comer: O Café Central, junto à estrada principal, serve diariamente sopas e pratos do dia por 6-8€. Abre às 7h para o pequeno-almoço.
Campos que respiram entre serra e lagoa
A Usseira oferece o que Óbidos turística não dá: espaço para respirar. Trilhos rurais ligam a freguesia ao Vale dos Arcos e às margens da Lagoa, permitindo passeios a pé ou de bicicleta entre campos floridos, muros de pedra seca e sebes de faias. A densidade populacional é baixa — 132 habitantes por quilómetro quadrado — e muitos dos caminhos continuam a ser de terra batida. Quinze minutos de carro bastam para chegar às praias de Peniche e do Baleal, ao windsurf na Lagoa ou aos campos de golfe. Mas quem fica pela Usseira descobre outro ritmo: o das estações que ditam a colheita, o das conversas lentas à porta das casas, o do frio que morde ao entardecer e obriga a fechar o casão.
Onde ficar: A Quinta do Arneiro tem quartos duplos desde 70€, com pequeno-almoço incluído. Reserva antecipada obrigatória: 262 959 395.
Trilho PR1: Circuito de 8 km que liga Usseira à Lagoa de Óbidos. Duração: 2h30. Marcado a amarelo e vermelho. Leve água — não há cafés no percurso.