Artigo completo sobre Vau: onde a lagoa de Óbidos encontra o Atlântico
Freguesia de 936 habitantes entre pomares de Pêra Rocha e a brisa salgada do mar
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A brisa traz o sal rachado que ainda agora rebentava em espuma na Praia do Bom Sucesso. Quem passa pela Rua da Igreja sente-o nos lábios antes mesmo de ver o mar. É ali, ao lado do cemitério onde as campainhas têm nome de gente que nunca conheceu outro ofício senão o da terra e da rede, que as pereiras da Graça começam a florir em meados de Março — as brancas primeiro, as vermelhas depois, tão perfumadas que os velhos dizem "dá para adoecer".
Vau não é só planície. Tem um ressalto discreto junto à antiga escola primária: sobe-se uns metros e, de repente, a lagoa aparece inteira, oval como uma bacia de barro, com as bateiras dos moluscos paradas a maré vazia. A estrada municipal 114 serpenteia entre muros de pedra onde ainda se lê "Há melões" apagado por chuvas de três Invernos. Nenhum turista repara, mas é ali que o Zé Moleiro vendia melões do seu quintal até há bem pouco — parava quem parasse, cortava na hora, punha açúcar se a fruta fosse verde.
A lagoa que engana
Quem não conhece pensa que se pode atravessar a pé. Engana-se. O fundo é todo em bancos de areia que se movem; ontem havia ali, amanhã pode não haver. É por isso que os pescadores locais — e são poucos, talvez uma dúzia — levam duas páreas: uma para medir a profundidade, outra para desatolar quando a lama aperta. Na maré vazia de Janeiro, se o céu estiver límpido, avistam-se os sapais da Fonte da Bica como uma tigela de esmeralda partida. Na cheia de Outubro, a água sobe até aos caniços das cabanas de palha de onde se vendia percebes há vinte anos. Hoje são apenas ruínas a cheirar a alga seca.
O que se come (e quando)
Quarta-feira é dia de feira em Caldas. Partem-se os Vauenses antes das sete, com sacos de rede pendurados no ombro. Traze de lá o peixe que chegou de manhã ao porto de Peniche — carapau de primeira, tamboril para caldeirada, sargo se a sorte ajudar. Mas o prato que marca a diferença é o caldeirada de enguias da lagoa: leva-se ao lume logo após o pôr do sol, quando a maré começa a entrar e as enguias despertam. A receita é simples — tomate maduro, cebola picada fina, pimentão da terra fumado, um fio de azeite virgem da cooperativa de Benedita — mas o segredo é o tempo: ferve-se em lume brando durante exactamente o que se demora a rezar um terço. Quem apressa fica com água turva; quem se atrasa perde o sabor do lodo.
As maçãs que não se vendem
Sim, há Maçã de Alcobaça IGP, mas a maioria vai para a central de embalagem da Mexilhoeira. Ficam os frutos pequenos, os que têm sabor de céu quente e terra fria. São esses que as senhoras descascam ao lado da porta, de faca curta na mão esquerda, o cacho direito a rodar como um pião. Daí saem as compotas que ninguém rotula — ficam em garrafas de iogurte lavadas, com tampa de celofane e elástico cor-de-rosa. Se calhar há-de encontrá-las no café O Pescador, junto ao livro de bolos: servem-se com pão de milho tostado, manteiga salgada, um cafezinho que o António ainda moe no moinho de mão que o pai lhe deixou.
O silêncio das sete e meia
A IC1 corta Vau ao meio, mas quem vive dentro das ruas de terra não ouve o trânsito. O que se ouve são as gaivotas quando o lixo orgânico vai para a rua, o ladrar esporádico do cão do Celestino, o tractor do Zé da Bica a aquecer às seis da manhã. Às sete e meia o movimento acaba: é a hora de jantar, de lume brando, de televisão na SIC Notícias. As janelas acendem-se uma a uma, quadrados de luz dourada que se refletem nos muros caiados de cal. Se houver lua cheia, não é precerio candeeiro: a planície transforma-se num prato de prata onde as silhuetas das três igrejas — Vau, Nossa Senhora das Neves e São João Baptista — desenham-se como tachos de cortiça.
Quem fica, quem chega
Dos 936 habitantes, 273 têm mais de 65 anos. Muitos nunca saíram da freguesia excepto para ir ao hospital de Caldas ou à conserva de Peniche trabalhar. Agora chegam franceses, alemães, holandeses. Compram ruínas com poço de água dentro, tiram as portadas de madeira, pintam o exterior de branco fosco. Chamam-lhe "quality of life". Os velhos riem-se — "qualidade é quando se pode ir à lagoa apanhar uns percebes sem pedir licença a ninguém". Mesmo assim, trocam galinhas por aulas de francês e ensinam os recém-chegados a distinguir o ruído da chuva fina no telhado de canudo do rufar da chuva grossa na chapa do forno.
Caminhar por Vau à noite é levar com a brisa que já percorreu quinze quilómetros de mar aberto sem encontrar nada à frente. Ela entra pela Rua do Cemitério, desce junto ao campo de futebol onde a relva cresce no meio-círculo porque ninguém marca penaltys, sobe outra vez em direcção ao Oceano. Leva consigo o cheiro a murta florida, a esterco de vaca, a lenha de pinho que ainda arde nas cozinhas. E, se alguém se detiver à porta da igreja, escuta-se o rumor longínquo das ondas a rebentar no Fossil Cliffs — um som que não varia há dois milhões de anos, mas que cada geração ouve como se fosse a primeira vez.