Artigo completo sobre Atouguia da Baleia: o vento, o sal e a memória
Vila litoral de Peniche onde um cachalote deu nome à rua e o salitre molda a paisagem há séculos
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O vento chega primeiro que tudo. Antes de se avistar o mar, antes de se distinguir o contorno dos moinhos contra o céu de cinzento-pérola, há este sopro carregado de iodo e areia fina que se cola à pele e endurece os lábios. Nos palheiros da Gamboa — estruturas de madeira escurecida pelo salitre, cobertas de sapê que o tempo desfez e as mãos refizeram —, o ar cheira a rede molhada e a alcatrão de calafeto. É nesta linha de costa, a pouco mais de sessenta metros de altitude média, que Atouguia da Baleia se estende ao longo de quase 4700 hectares entre o Atlântico e os campos do interior Oeste.
A rua com nome de cetáceo
Há uma artéria nesta vila que não se encontra em mais nenhum lugar de Portugal: a Rua da Baleia. O nome não é capricho toponímico. Em 1914, um cachalote encalhou na Praia da Gamboa e foi arrastado até aqui, onde o descarnaram à vista de toda a gente. O episódio — brutal e fascinante — grudou-se à identidade colectiva de tal modo que a própria freguesia, desanexada de Serra d'El-Rei em 1953, carrega o apelido. Antes do cachalote, porém, o nome já contava uma história: «Atouguia» vem do árabe al-turgi, lugar de pastagem, lembrança de um tempo em que este litoral era sobretudo terra de rebanhos e de silêncio. A ligação à Ordem de Cristo no século XV e a integração no concelho de Peniche em 1836, durante a reforma liberal, foram desenhando o perfil de uma comunidade que nunca se definiu por uma só vocação — nem só mar, nem só campo.
Pedra, cal e capelo de madeira
A Igreja Matriz, erguida no século XVI, guarda no interior um retábulo maneirista cuja talha dourada captura a pouca luz que entra pelas frestas laterais. A poucos passos, o Cruzeiro de Atouguia, em granito setecentista, projecta a sua sombra fina sobre a calçada irregular. Mais perto do mar, a Capela de Nossa Senhora da Boa Viagem exibe uma fachada barroca do século XVII que a maresia tem vindo a polir, suavizando as arestas da cantaria. E depois há o Forte de Nossa Senhora da Consolação, sentinela costeira do mesmo século, construído para vigiar o que vinha do oceano — corsários, tempestades, o desconhecido. No Cabeço do Penedo, vestígios romanos e islâmicos afloram entre a vegetação rasteira, como se a terra se recusasse a engolir por completo o que nela depositaram.
Mas o monumento que mais surpreende é o Moinho de Vento de Atouguia, recuperado e funcional, um dos raros exemplares do litoral que ainda conserva o mecanismo original de capelo de madeira. Quando as velas giram, ouve-se um rangido grave, quase orgânico, que se mistura com o assobio do vento atlântico.
Maré baixa: cavalos, espátulas e dois quilómetros de areia
O Estuário do Rio Sizandro é um organismo de geometria variável. Na maré baixa, a água recua mais de dois quilómetros, expondo bancos de areia onde cavalos soltos pastam com uma placidez que desmente a violência do oceano ali ao lado. É ao longo deste estuário que se desenrola o trilho pedestre de cinco quilómetros, território de observação de espátulas-de-bico-preto e maçaricos-galegos. Para quem prefere duas rodas, a ciclovia do Pinhal de Leiria liga à Praia da Consolação, atravessando um corredor de pinheiros onde a resina perfuma o ar quente das tardes de Verão. O Trilho dos Moinhos, percurso circular de sete quilómetros, passa pelos moinhos de vento e pelos palheiros, e termina no miradouro do Cabeço do Penedo — de lá, num dia limpo, as Berlengas recortam-se no horizonte como uma promessa de arquipélago. A freguesia integra, aliás, o Geopark Oeste, classificado pela UNESCO, e encontra-se na área de influência da Reserva Natural das Berlengas. Quem segue o Caminho da Costa rumo a Santiago passa por aqui, e não é raro ver peregrinos a cruzar a Gamboa com as conchas penduradas na mochila.
Caldeirada, pão escuro e um licor que sabe a duna
A Caldeirada de Peixe da Gamboa chega à mesa em panela de barro: robalo e cherne entremeados com rodelas de tomate, cebola em meia-lua e um punhado generoso de coentros cujo aroma sobe em espiral com o vapor. A Sopa de Pão de Atouguia é outro rito — pão escuro embebido em caldo de alho e coentros, coroado por um ovo escalfado que se rompe ao primeiro toque da colher, tingindo tudo de amarelo denso. As enguias de escabeche, pescadas no Sizandro, trazem um travo ácido que limpa o palato para o que vem a seguir: o Doce de Ovos «Coração de Atouguia» ou os Bolinhos de Amor, massa de pão frita polvilhada de canela que estala entre os dentes. Há ainda vinho branco leve, de vinhas plantadas em areia, e um licor de erva-príncipe destilado a partir de uma planta endémica das dunas — herbáceo, quase medicinal, impossível de confundir com qualquer outro. A região é também terra de Pêra Rocha do Oeste DOP e de Maçã de Alcobaça IGP, frutas que aparecem nos mercados da Feira Mensal, realizada na primeira terça-feira de cada mês.
Os ofícios que o mar ensinou
Maria da Conceição «Lili» Silva, mestra de redes e guardiã do ofício de arte-xávega, passou quase nove décadas a ensinar as mãos de Atouguia a trançar malha. O Padre Joaquim Lourenço, pároco e etnógrafo, dedicou a vida a registar as lendas orais da costa penichense, salvando da extinção narrativas que de outro modo se teriam dissolvido com a espuma. A Romaria de Nossa Senhora da Boa Viagem, no primeiro domingo de Maio, leva a procissão por mar até Peniche, e o Círio de São Pedro, a 29 de Junho, enche a água de barcos ornamentados com flores e bandeirolas. Na quadra natalícia, sobrevive a tradição das Cantigas ao Desafio — improviso poético onde duas vozes se medem em versos de rima rápida, e onde o silêncio entre estrofes pesa tanto como as palavras.
Atouguia da Baleia tem pouco mais de nove mil habitantes, dois mil e trezentos dos quais com mais de sessenta e cinco anos. É uma freguesia que carrega o peso da memória nos ombros — mas que o faz com a naturalidade de quem nunca precisou de se explicar. À noite, quando o vento abranda e o Atlântico se reduz a um murmúrio grave, é possível ouvir, desde a Rua da Baleia, o rangido do capelo do moinho a girar no escuro — e perceber que esse som, e só esse, é a assinatura sonora deste lugar exacto do mundo.