Artigo completo sobre Ferrel: Entre Pomares e o Atlântico de Peniche
Freguesia a 19 metros de altitude onde a agricultura e o mar definem o território e a vida local
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A estrada desengata da península e baixa o pé no planalto. À esquerda, o matagal de searas queimadas pelo verão; à direita, a primeira cancela onde uma mula baça mastiga sem pressa. Ferrel começa assim: no cruzamento onde o cartaz “Vende-se” já perdeu metade das letras. Não se vê o mar, mas ele está — entra pela goela abaixo em cada golada de ar que sabe a maresia e a esterco de galinha.
São 2759 moradores, mas na prática são menos. Contam-se nos dedos os miúdos que ainda apanham o autocarro escolar às sete e meia; nas esquinas, os velhos de boné desfiado jogam sueca com baralho gasto. A geração do meio foi toda trabalhar para a Continental, para o turismo de Peniche ou para a construção que rebentou em 2008 e nunca mais voltou. Sobraram casas por acabar e terrenos que o tempo transformou em pasto.
Igreja, moinho e cisterna
A Igreja de São Pedro é do século XVIII, dizem. O que interessa é que a pedra está quente ao fim da tarde e serve de banco a quem espera pela boleia para o Baleal. Ao lado, o moinho perdeu as velas mas ainda tem o eixo de madeira onde as crianças engraxam os joelhos a deslizar. Mais acima, a cisterna romana é só um buraco com degraus escorregadios e uma placa que ninguém lê. O monumento nacional mesmo é a padaria da Dona Amélia: abre às seis, fecha às dez, e o pão de trigo custa setenta cêntimos. Se chegar tarde, leva broa doce e não reclame.
Ferrel faz parte do Geopark porque sim. No café, o pessoal ri-se: “Geopark é o que? Temos é pedra para o muro todo.” A verdade é que a arriba come-se aos poucos: cada inverno leva um bocado mais da falésia e deixa as casas de férias com o coração aos saltos. Das Berlengas vê-se só o reflexo branco no céu limpo; o que se sente é o dinheiro que os barcos deixam em Peniche e que aqui não chega.
Maçã que cai, pera que fica
Os pomares são retangulos de estacas de pinho que rangem quando o vento é de leste. A maçã é gala, a pera é rocha e ambas levam uma sova de caldo bordalês que deixa os frutos com sabor a ferro. Agosto é mês de estufa: dezenas de brasileiros subidos em escadas, sacos ao ombro, que cantam em portunhol para afastar o tédio. Em outubro, sobram as fraturadas — as que caíram no chão — e o caseiro vende ao público em caixas de 5 kg: 3 euros, leve mais duas peras de brinde. Não há prova gastronómica, há é marmelada feita pela mulher do Zé Manel que azeda se não comer no mês.
O alojamento local multiplicou-se nos quintais: garagens transformadas em estúdios, anexos com varanda de madeira plástica, nomes tipo “Sunset Ferrel” escritos com spray na parede. No verão, chega gente de mochila e prancha que enche o intermarché de cuecas molhadas. No inverno, fecha-se tudo e fica o silêncio — só o gerador da casa da esquina a roncar como velho asmático.
A hora em que o dia desce
Aqui o sol não se põe, foge. Rasga o horizonte às sete e meia, tinge as fachadas de laranja queimado e faz das pedras da igreja uma lareira viva. A sombra do cruzeiro alonga-se até ao campo de futebol onde o relvado é terra batida e a baliza não tem redes. O vento é o mesmo de sempre: levanta o pó da estrada, leva o fato de banho do estendal e bate na chapa do Opel Kadett que ninguém arranca desde 1997.
Quando escurece, apagam-se as candeeiros do campo de ténis e sobra apenas a luz da mercearia, aberta até às dez para vender cerveja aos peregrinos. O cão do Celestino ladra três vezes, depois cala-se: já sabe de cor o barulho de cada carro. E quando as janelas se fecham, entra pela rendilha do quarto aquele odor que é metade mijo de vaca, metade espuma de mar — o cheiro exacto de quem vive no ponto onde a terra acaba e o medo de afogar começa.