Artigo completo sobre Alvados e Alcaria: onde o calcário guarda o oceano
Duas aldeias na Serra de Aire onde 731 habitantes vivem entre fósseis jurássicos e igrejas brancas
Ocultar artigo Ler artigo completo
A luz da manhã entra pela janela da padaria quando o Zé Mário tira os primeiros pães do forno. São sete e meia, a rua está deserta, e o cheiro a pão quente mistura-se com o de esterco que vem dos campos. Alvados dorme ainda, mas não por muito — ouve-se o primeiro trator a roncar lá em baixo, no vale onde o Aníbio vai regando as alfaces antes que o sol lhes queime as folhas. São 731 almas, sim, mas conta-se pelos nomes: os quatro Manuel, as três Maria de Lurdes, o Toninho que foi parar a Paris mas cá vem nos meses de verão trazer os miúdos e deixar a mulher louca com a poeira da estrada de terra.
A pedra é que manda
A igreja está ali no meio, branca como as cuecas do Seu António que elas estendem no varal todos os domingos. Dizem que "Alvados" vem do latim, mas o que eu sei é que quando o sol bate na parede da casa do Celestino, às duas da tarde, é preciso óculos escuros para não ficar cego. Em Alcaria, a capela de São Bento é tão pequena que a missa do baptismo da Joana teve de ser com meia aldeia lá fora, aos abrigos da chuva. As casas são de xisto, sim, mas o que interessa é que aguentam o temporal de Janeiro sem deitar água para dentro — ao contrário do apartamento do meu primo em Lisboa, que parece uma cachoeira mal começa a chover.
Onde a Serra nos deixa respirar
O parque natural é isto tudo: o sítio onde o meu pai foi buscar o cabrito no dia em que me levei a minha mulher a jantar lá a casa, e ela passou a noite a dizer que nunca mais comia outro bicho tão giro. A gruta é mesmo aquilo que dizem, mas leva casaco — não pelo frio, que também, mas porque o dono da tasca lá ao lado é dos que não ligam a aquecedores. E leva lanterna, porque o meu sogro foi lá parar no escuro, tropeçou numa pedra e partiu o óculos. Quinhentos e tal euros numa coisa que nem sequer tinha bichos dentro.
O que se leva para a boca
O cabrito do Zé do Telhado é na brasa, com aquela gordurinha que estala na grelha. A sopa de pedra ninguém faz como a minha avó — ela diz que o segredo é a pedra mesmo, mas eu desconfio que é o vinho tinto que ela vai bebendo enquanto mexe a panela. O queijo é da Ti'Isabel, aquele que fica a murchar no armário durante três meses até estar "naquele ponto" — o meu sogro diz que é igual ao cheiro dos pés do meu tio Jacinto, mas come dois pedaços. No fim, um nico de amêndoa e um bagaço que o meu primo faz na garrafa de plástico, aquele que faz lacrimejar até o cão.
Gente que fica, gente que vai
São vinte e dois por quilómetro quadrado, mas nas noites de verão parecem mais — os emigrantes voltam com os carros alemães estacionados em segunda fila, as crianças correm descalças na rua e a avó Rosinda queixa-se que já não se pode ir à janela sem ver um estrangeiro de máquina fotográfica. Os jovens? Foram quase todos. Mas o Filipe voltou há dois anos, abriu um alojamento local na casa do avô e agora passa os dias a explicar aos turistas porque é que o cão do Seu António se chama "Trump". Diz que é pelo cabelo, mas eu cá sei que é porque ladra para tudo o que é lado e ninguém o leva a sério.
Ao cair da tarde, quando o sol se põe atrás da serra e o calcário fica cor de rosa como as camisas do meu pai nos casamentos, ouve-se a porta do bar do Júlio a fechar. É o som do dia a acabar — mas também do dia seguinte a começar, porque às seis da manhã o Zé Mário já está outra vez a fazer o pão, e a aldeia volta a cheirar a vida que ninguém conseguiu levar embora.