Artigo completo sobre Arrimal e Mendiga: Pedra, Memória e Silêncio
Entre pedreiras e grutas nas Serras de Aire e Candeeiros, um território moldado pelo calcário
Ocultar artigo Ler artigo completo
O chão range debaixo dos pés. Não é terra batida, nem lajedo polido pelo uso: é pedra esbracejada, calcário esboroado em lascas brancas que se acumulam à beira dos caminhos como restos de um grande naufrágio mineral. Aqui, na União das freguesias de Arrimal e Mendiga, a paisagem é feita de ausência — pedra arrancada, crateras abandonadas, escarpas onde o sol bate sem filtro ao meio-dia. O silêncio é denso, pontuado apenas pelo chilrear de algum chapim-real escondido entre as estevas e pelo eco distante de uma máquina que ainda trabalha a rocha, algures no planalto.
O que a montanha deu
A história deste território é inseparável da pedra. Desde o início do século XX, dezenas de pedreiras de calcário abriram feridas no flanco das Serras de Aire e Candeeiros, fornecendo calçada portuguesa e pedra ornamental para cidades distantes. Algumas ainda operam, outras jazem abandonadas, invadidas por mato e água da chuva, transformadas em anfiteatros naturais de paredes verticais e luz oblíqua. Menos conhecido é o passado carbonífero: entre 1900 e 1962, cinco concessões de exploração de carvão-lignito funcionaram nesta área, um episódio industrial esquecido que deixou galerias fechadas e memórias dispersas entre os mais velhos. O cheiro a pólvora que pairava no ar quando rebentavam as minas ainda vive na memória de quem ouviu os pais contar.
A fusão administrativa de janeiro de 2013 juntou Arrimal — nome derivado do latim arremal, referência a uma colina próxima — e Mendiga, topónimo que os mais velhos dizem vir das "mendes" que pastavam aqui. O resultado é uma freguesia de 3 864 hectares e 1 574 habitantes, dispersos em núcleos pequenos onde o granito das casas antigas contrasta com o branco cru do calcário que emerge por todo o lado. Na aldeia de Mendiga, a padaria ainda abre às sete da manhã e o cheiro do pão mistura-se com o fumo das lareiras.
Água e rocha
Integrada no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, a União de Arrimal e Mendiga oferece paisagem de contrastes geológicos: lapiás cinzentos rasgados por fendas, grutas escondidas sob matos mediterrânicos, escarpas que se elevam abruptas sobre vales onde crescem azinheiras de tronco retorcido e sobreiros de casca espessa. A altitude média ronda os 355 metros, e o ar tem um frescor seco, perfumado a esteva quando o sol aquece a resina das folhas. Na Primavera, o aroma torna-se quase doce, como mel silvestre.
As lagoas naturais de Arrimal são um respiro visual no meio da aspereza calcária: espelhos de água rodeados por caniços e salgueiros, frequentados por garças e patos-reais, onde famílias estendem toalhas para piqueniques de fim de semana. Os miolos de porco que se comem aqui, marinados com ervas da serra, têm sabor a terra e a água. Os trilhos rurais que atravessam a freguesia convidam a caminhadas lentas, entre olivais onde amadurecem azeitonas para o Azeite do Ribatejo DOP, pomares de Maçã de Alcobaça IGP e Pêra Rocha do Oeste DOP, e vinhas velhas plantadas em socalcos improváveis.
Experiências à superfície
Percorrer esta terra exige pernas e curiosidade. Os caminhos de BTT sobem e descem entre pedra solta, atravessam bosquetes de carvalho-português e abrem-se em panorâmicas sobre o Planalto da Mendiga, onde o horizonte é apenas calcário, céu e a linha distante da serra. Nas antigas pedreiras, a luz do fim da tarde pinta as paredes de ocre e rosa; fotógrafos e observadores de aves regressam sempre, atraídos pela acústica estranha destes espaços ocos e pela possibilidade de avistar um peneireiro-cinzento planando sobre a rocha. O silêncio é tão completo que se ouve o próprio sangue a pulsar nas têmporas.
A população é envelhecida — 359 habitantes com mais de 65 anos, contra 194 jovens até aos 14 — e a densidade baixa, de 40,73 habitantes por quilómetro quadrado, assegura que o silêncio permanece intacto. No café "O Pátio" em Mendiga, os homens jogam sueca ao fim da tarde enquanto bebem bica que custa sessenta cêntimos. Os onze alojamentos disponíveis, entre moradias e quartos, acolhem sobretudo quem procura caminhadas sem pressa e noites de estrelas visíveis sem poluição luminosa. O céu nocturno é tão limpo que se veem os satélites a passar.
No final do dia, quando o sol poente incendeia o pó de calcário suspenso no ar, a paisagem parece arder sem fogo. É uma luz branca, quase cegante, que transforma as crateras em espelhos e faz brilhar os lapiás como ossos expostos. Fica na retina, essa claridade mineral — e o som da pedra a ranger debaixo dos pés.