Artigo completo sobre Abrigada e Cabanas: vinhas e peras no sopé da Serra
Duas aldeias unidas pela vinha DOC Alenquer e pela tradição frutícola no coração rural de Lisboa
Ocultar artigo Ler artigo completo
O sol da tarreirinha escorre pela Serra de Montejunto como azeite num prato e, quando chega às vinhas, pára. Fica ali, a espreguiçar-se entre os carreiros, enquanto o pessoal da Adega da Labrugeira despacha os últimos baldes antes de ir para casa jantar. Dizem que são 85 sócios, mas conta-se que pelo menos metade já assinou a reforma — agora deixam os netos conduzir o tractor e limitam-se a apontar com o indicador: “aquela vinha é minha, a do lado é do Zé Manel”.
A fusão Abrigada-Cabanas de Torres foi em 2013. Ninguém liga muito: quando se vai ao café pede-se “um imperial” e pronto. Abrigada tem o talho onde ainda se corta à faca e se fala do tempo; Cabanas tem o cruzamento para Torres Vedras onde a GNR gosta de se esconder atrás do muro. Entre uma coisa e outra cabem 46 km², duas escolas básicas, um centro de saúde que abre quando abre e 4157 almas que, no censo, dizem viver cá mas metade só cá dorme ao fim-de-semana.
Vinhas que pagam contas
A vinha é o que restou quando a cereja, o amendoim e o feijão-frade deixaram de dar lucro. O calário da terra dá aquele toque mineral que os enólogos de Lisboa descrevem como “elegante”; o pessoal da terra chama-lhe “água com giz” e segue em frente. O vinho sai bem, sobretudo o branco que o restaurante de Benfica do Pato compra a granel e serve a 4€/garrafa. Para ver as vinhas de perto vá de manhã cedo, antes do calor apertar — leve água, porque o café da Labrugeira só abre às nove e meia e não tem pacote de bolachas desde 2019.
Pêra Rocha — o filho que ninguém quer apresentar
A Pêra Rocha existe, mas em quantidades que cabem num citrino. Os pomares estão espalhados atrás das casas, onde se plantou “para aproveitar o terreno”. Em Março cheira bem; em Agosto sobra tanto que se deixa na porta dos vizinhos com um bilhete: “se quiser, leve”. A DOP orgulha-se; cá orgulha-se quem consegue vendê-la ao fruteiro de Alenquer sem levar puxão de orelhas pelo tamanho.
Caminhar sem pressa
O Caminho de Santiago passa aqui, mas não espere albergues nem setas luminosas. Há umas marcas amarelas que o João Zé Pintou com tinta da sucata e já vão desbotadas. Quem vem é espanhol perdido ou francês que confundiu o GPS. Levem pão e fiambre — não há cafés no meio do caminho e o único fontanário que funciona é o da Fonte Santa, onde as senhoras vão buscar água para a sopa. O Geopark diz que as pedras são fósseis; o que se vê são muros de pedra seca que o pai do Adelino fez para o gado não fugir e que hoje servem para os alemães tirarem fotos.
Domingo ao meio-dia
Nos parques de merenda acontece o que interessa: churrasco de espetada de borrego, garrafão de tinto e o rádio no máximo. Chegue antes das treze senão fica sem mesa — os miúdos já tomaram conta dos baloiços e os avis gritam “salta, mas não te partas!” A densidade populacional é de 90 hab./km², o que quer dizer que há sítio para estacionar a carrinha ao lado do balcão sem pagar estacionamento.
Quem fica, quem sai
São 504 crianças, 1127 reformados e um punhado de gente que trabalha fora e regressa às sete para jantar sopa de tomate. A escola de Abrigada ainda tem três turmas; a de Cabanas fundiu-se e agora leva-se o miúdo de carro, reclamando do gasóleo. O médico vem três vezes por semana — marque o dia antes, senão fica para a semana seguinte. A farmácia tem de tudo, menos atendimento aos sábados à tarde, que é quando a ressaca da espetada aperta.
Último copo
Às oito e meia o sol desce atrás da serra e as vinhas parecem moedas de cobre. O café encerra às nove, mas o Sr. António fica até às nove e um quarto se pedir “mais um” com jeitinho. Não há espetáculo, nem música ambiente — só o rádio da cozinha a dar “Pimba” e o som do vinho a cair no copo. É isso. Quando o copo acaba sabe a terra, a uva e a cal — e sabe sempre ao mesmo, o que, por cá, é sinal de que está tudo bem.