Artigo completo sobre União de Santo Estêvão e Triana: vinho e história
Duas aldeias medievais unidas pelo calcário, pela vinha e pelos forais de D. Afonso Henriques
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O cheiro chega antes da imagem. Um travo doce e ácido ao mesmo tempo — uva em fermentação, terra calcária húmida, um resto de fumo de lenha que se agarra às paredes caiadas. Caminha-se por ruelas estreitas onde o reboco descasca e deixa ver a pedra lioz, e o som dos passos ecoa contra fachadas de dois andares, janelas de madeira entreaberta. No largo, o Pelourinho de Alenquer ergue-se como uma cicatriz vertical no chão, testemunho do foral de 1212 que deu forma jurídica a um lugar cujo nome — Alen-quer, do árabe al-Ahnikár — já significava "ponte do amanhecer". Estamos na União das freguesias de Alenquer (Santo Estêvão e Triana), a 75 metros de altitude sobre o vale onde o Rio Alenquer escorre em direcção ao Tejo, e tudo aqui fala de coisas que crescem devagar: videiras, tradições, camadas de cal sobre camadas de história.
O foral, a corte e as batalhas de antes
Santo Estêvão aparece nos documentos desde 1157, mencionada nos forais de D. Afonso Henriques e de D. Sancho I — um dos primeiros reconhecimentos formais de uma comunidade que já existia antes de ter nome escrito. Triana, a meia encosta, cresceu como aglomerado rural atado à vinha e ao olival, e durante séculos as duas viveram como vizinhas de costas voltadas, cada uma com a sua igreja, o seu santo e o seu calendário de festas. Em 2013, a reforma administrativa juntou-as numa só freguesia, mas quem percorre os dois núcleos percebe que a costura é recente: as identidades ainda se distinguem na cor da pedra, no traçado das ruas, na maneira como os moradores se referem a "cá em cima" e "lá em baixo".
A vila guarda um episódio que raramente aparece nos roteiros turísticos: em Junho de 1385, D. João I escolheu Alenquer para acolher a corte antes de marchar para a Batalha de Aljubarrota, reunindo aqui os homens-de-armas que seguiriam depois para a Batalha de Atoleiros. E reza a tradição que o vinho destas encostas foi servido na boda do mesmo rei com D. Filipa de Lencastre em Oeiras em 1387 — um pormenor que os viticultores locais repetem com um orgulho que não precisa de documentos, apontando para os registos da Casa Real que mencionam "vinhos de Alenquer" nas despesas nupciais.
Retábulo manuelino e azulejo que conta o tempo
A Igreja Matriz de Santo Estêvão, reconstruída entre 1530 e 1560, impõe-se não pela escala mas pela densidade. O retábulo manuelino em talha dourada, atribuído ao Mestre João de Castilho, sobreviveu ao terramoto de 1755 e às remodelações oitocentistas, e os painéis de azulejo de 1720 cobrem as paredes com um azul cobalto que a luz da manhã, entrando pelas frestas laterais, torna quase líquido. O silêncio lá dentro é espesso, interrompido apenas pelo estalar da madeira velha quando a temperatura muda. Em Triana, a Capela de Nossa Senhora da Conceição, construída em 1692 com o apoio do provedor-mor das obras públicas D. Francisco de Sousa Pacheco, é mais modesta — cal branca, altar simples — mas é nela que a comunidade se reúne a 8 de Dezembro para a missa campal e o arraial que se estende noite dentro. A região conta dez monumentos classificados, dois deles Monumentos Nacionais (a Igreja Matriz de Santo Estêvão e o Pelourinho), e várias quintas e solares setecentistas ligados à produção vinícola, como a Quinta da Serralheira, onde a arquitectura agrícola se confunde com a senhorial.
Vinhas em terraço e o gosto do calcário
A paisagem explica a gastronomia e a gastronomia explica a paisagem. Vinhedos em terraços sobre solos calcários estendem-se até onde a vista alcança, intercalados com olivais e manchas de montado de sobro cujas copas irregulares recortam o horizonte. Estamos na sub-região vinícola de Alenquer, dentro da região de Lisboa, e os tintos de Touriga Nacional e Tinta Roriz que aqui amadurecem têm uma mineralidade que os enólogos atribuem precisamente a esse calcário que se desfaz sob as botas. Os brancos de Arinto e Fernão Pires são mais discretos, secos, com um final que lembra citrinos verdes. O Centro de Interpretação do Vinho de Alenquer, instalado na antiga adega da Quinta da Aveleda desde 2015, permite perceber o ciclo completo, e a Rota dos Vinhos do Tejo inclui paragens em adegas familiares como a Quinta do Monte d'Oiro, onde a prova se faz com queijos Azeitão e queijadas de Alenquer sobre uma mesa de madeira gasta pelo uso.
À mesa, a sopa da panela de carne de porro chega fumegante, densa, com o sabor gordo e reconfortante do toucinho da Beira. O ensopado de enguias do Ribatejo e o cabrito assado em forno de lenha disputam o lugar principal, enquanto as migas de espargos servem de acompanhamento verde e terroso. Nos doces, os trouxas de ovos, os bolinhos de noz e o pão de ló de Alenquer — cuja receita remonta ao Convento do Espírito Santo em 1830 — fecham refeições que pedem uma sesta longa. E nos pomares que descem para o vale, a Pêra Rocha do Oeste DOP amadurece com a paciência que o terroir calcário-cárceo lhe ensina.
Grutas com presépios e caminhos com conchas
Alenquer é conhecida como "Vila Presépio": no Natal, grutas e cavas de pedra transformam-se em cenários de natividade, com figuras iluminadas por velas e pela humidade que brilha nas paredes de rocha. A Festa de Santo Estêvão, a 26 de Dezembro, prolonga esse clima, e as procissões da Semana Santa — com imagens barrocas do século XVIII carregadas por ruas íngremes — devolvem ao núcleo urbano uma solenidade que o resto do ano se dilui no quotidiano. Em Novembro, a Feira de São Martinho recupera hábitos medievais: vinho novo, castanhas assadas a estalar na brasa, produtos artesanais dispostos sobre bancas de madeira.
Para quem prefere o silêncio da paisagem, o Trilho da Serra de Montejunto (PR1), com 11,5 km, abre-se a norte com miradouros sobre o vale do Tejo e as vinhas em patamares, e o Rio Alenquer cria zonas húmidas onde aves aquáticas como a garça-real pousam entre juncos. O Caminho de Torres, variante do Caminho de Santiago criada em 2015, atravessa esta zona — e não é raro cruzar-se com peregrinos de mochila e vieira ao peito, a caminho de algo que não se mede em quilómetros.
O som que fica
Ao final da tarde, quando a luz rasante tinge os vinhedos de cobre e o ar arrefece o suficiente para se sentir o calcário na garganta, há um momento em que o sino da Igreja de Santo Estêvão bate às 19h00 e o eco rola vale abaixo, sobre as vinhas, até se perder algures junto ao rio. É esse o som que se leva de Alenquer — não um cartão-postal, mas uma vibração grave que ressoa no peito muito depois de se ter partido.