Artigo completo sobre Ota: onde os monges venceram o pântano árabe
Da drenagem cisterciense ao castro milenar, a freguesia que nasceu da luta contra a água
Ocultar artigo Ler artigo completo
O ar aqui pesa nos pulmões — não é só a humidade, é a luz que se agarra ao vapor das lezírias. Quando o vento vira do Tejo traz o cheiro a rebarbo e a mimosa que rebentou nas searas. A planície não é vasta: é um tapete debrumado de choupos que escondem os corregos ainda vivos. Paul da Ota, dizem os mais velhos, mas ninguém hoje ousa pisar o charco onde as galinhas se perderam no verão passado.
Pedra que fala de eras esquecidas
No Castro da Ota o silêncio é de terra batida. Escavar aqui é encontrar lascas que cortam o dedo como se o silex ainda quisesse servir. Carlos Ribeiro trouxe-as embrulhadas em jornais ao Rossio, mas o que ficou foram os miolos de menino que ainda hoje aparecem depois da enxada. O Canhão é outra coisa: um barranco onde as vacas descem para abrigar-se do Noroeste. A água canta debaixo da samouca, mas só se ouve quando a noite fecha.
Quando a água ditava a lei
Os cistercienses vieram com enxadas de ferro e escravos, mas foi a malária que mais trabalhou. Ainda se encontram tijolos de meia-laranja no fundo das valas — marcam onde os monges dormiam entre dois regatos. D. João II protegeu as garças porque as penas engraxavam os chapéus de corte. A Quinta de Ota tem hoje um portão azul que range igual ao de 1920; dentro, um laranjal onde o filho do caseiro vende licor de casca a quem bate à porta. Dizem que o Marquês de Pombal aqui passou uma noite, mas quem o viu foi o bisneto do pajem, e ele já nem se lembra da cor do cavalo.
A Igreja do Divino Espírito Santo cheira a cera de abelha e a roupa mijada de bebé. O teto de madeira estala com o calor da missa das onze — são as ripas que guardam o peso das promessas de 1917. Do lado de fora, o Marco da Mala Posta serve de banco aos homens que esperam o autocarro das nove. Ninguém lê as letras, mas todos sabem que Lisboa fica a trinta e duas milhas.
Terra que alimenta
A Pêra Rocha aqui é mais miúda, de pele grossa que se descasca em espiral. Quem as apanha come-as escondido no topo da escada, com sal grosso esfregado na cueca do jeans. Os vinhos vêm em garrafões de três litros que o pai do Zé enchia antes de ir para a feira de Santarém; hoje o Zé etiqueta três mil garrafas e vende pela internet, mas a uva é a mesma que o avó pisava descalço.
Ota tem o dobro do que se vê: 46 km² de quebradas onde a malta vai ao mato buscar medronhos antes que a GNR acorde. Os peregrinos passam rápido, assustados com os cães soltos e o cheiro a esterco. A Base Aérea põe um ranger baixo sob o céu — não é o F-16, é o gerador do quarteiro que falha às quartas-feiras.
Quando o sol toca na linha do horizonte, a planície fica dourada como se alguém tivesse derramado azeite na lente. O cheiro a terra molhada sobe rápido; é a mesma mistura de argila e folhas podres que os monges pisaram com os pés descalços. A noite traz o coaxar das rãs que nunca abandonaram o paul — porque o paul nunca desapareceu, apenas aprendeu a esconder-se debaixo do milho.