Artigo completo sobre Vila Verde dos Francos: vinhas sobre calcário milenar
Freguesia de Alenquer onde a geologia UNESCO se encontra com vinhos e Pêra Rocha DOP certificada
Ocultar artigo Ler artigo completo
O sol da manhã rasga o nevoeiro que se prende aos vales ondulados, revelando uma paisagem de vinhas geometricamente desenhadas sobre colinas suaves. A 186 metros de altitude, o ar traz o cheiro a terra húmida e a folha de videira, aquele aroma verde e ligeiramente ácido que só quem caminha entre as vinhas conhece. Vila Verde dos Francos estende-se por 2813 hectares de território onde o calcário aflora em bancadas brancas, testemunho geológico de um tempo em que o mar cobria estas terras — hoje integradas no Geopark Oeste, reconhecido pela UNESCO em 2022.
A herança dos francos
O topónimo aparece pela primeira vez em 1258, na Inquirição de Afonso III, como "Villa Verde de Francos". Os "francos" eram colonos livres — muitos vindos da Galiza e da região de Leão — a quem D. Sancho I (1185-1211) concedera forais especiais de povoamento. Mas a história desta freguesia estende-se muito além: o IIP que aqui se ergue — a Igreja de São Lourenço, classificada em 1982 — ancora a identidade patrimonial do lugar. São 1049 habitantes que hoje ocupam este território, distribuídos numa densidade baixa de 37 habitantes por quilómetro quadrado. A proporção entre gerações desenha um retrato claro: 295 idosos (65+ anos) para apenas 116 jovens (0-14 anos), dados do INE 2021 que ecoam o êxodo rural que se acentuou nas décadas de 1960-1980.
Vinho e pêra: a vocação agrícola
A Região Vitivinícola de Lisboa marca profundamente a paisagem e a economia local. As vinhas sucedem-se em fiadas ordenadas, aproveitando a exposição solar das encostas. O calcário do subsolo confere aos vinhos uma mineralidade particular — o Quinta do Monte d'Oiro, estabelecido em 1990, produz vinhos que Robert Parker classificou com 92 pontos. Mas não é só a vinha que define a agricultura deste território: a Pêra Rocha do Oeste DOP encontra aqui condições ideais, com 45 hectares de pomares registados na freguesia. Na primavera, as pereiras cobrem-se de flores brancas; em agosto, os frutos de polpa crocante são colhidos para mercados que vão desde Peniche até França.
O caminho dos peregrinos
O Caminho de Torres, variante portuguesa das rotas de Santiago, atravessa a freguesia durante 3,2 quilómetros. Não é o trilho mais movimentado — regista apenas 150 peregrinos/ano segundo a Associação dos Concelhos do Oeste —, mas precisamente por isso oferece uma experiência de caminhada contemplativa. Os pés batem na terra compacta dos caminhos rurais, ladeados por muros de pedra seca onde crescem fetos e líquenes. O silêncio só é interrompido pelo canto de uma cotovia ou pelo ladrar distante de um cão de guarda.
Habitar o território
Três alojamentos — Casa do Largo (recuperada em 2018), Quinta do Covanco e Casa da Eira — acolhem quem procura imersão neste território de baixa densidade turística. Não há multidões, não há pressas. A logística é simples: o café "O Padrão" serve pequeno-almoço a 3 euros, o restaurante "Adega Regional" faz cabrito no forno de lenha aos domingos. Vila Verde dos Francos não se vende por cartões-postais; oferece-se a quem procura autenticidade silenciosa. As famílias encontram aqui espaço para respirar, os casais uma pausa da velocidade urbana. A gastronomia assente em produtos locais — o queijo de cabra da Serra, o vinho Quinta do Monte d'Oiro Reserva 2018, a pêra rocha acabada de colher.
A tarde cai devagar sobre as vinhas. As sombras alongam-se entre as filas de cepas, e o ar arrefece trazendo o cheiro a terra que se prepara para a noite. Ao longe, o branco de uma parede caiada ganha tons de mel na luz rasante. Não é preciso mais.