Artigo completo sobre Alcoentre: Campos de Arroz e Caminhos de Peregrinação
Freguesia ribatejana onde a agricultura tradicional encontra os peregrinos rumo a Santiago
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O pó do caminho levanta-se em nuvens finas quando um grupo de peregrinos passa pela estrada municipal. São os primeiros a aparecer desde as sete da manhã — os camponeses já estão nos campos há duas horas. Ao longe, a planície estende-se sem interrupções — apenas os campos de arroz, os olivais e, aqui e ali, um palheiro que parece ter nascido ali por acaso. Alcoentre não se anuncia com grandes motivos. Revela-se devagar, na cadência de quem sabe que o arroz não se apressa por ninguém.
Terra de passagem, terra de permanência
Dizem que foi fundada em 1256, mas isso foi porque alguém se lembrou de escrever. Antes disso, já cá estavam os romanos — deram-lhe o nome de Alcuntre e foram-se embora. Ficaram-lhe os campos, os caminhos e a mania de cultivar arroz que os mouros aperfeiçoaram. A 71 metros de altitude — sim, alguém mediu — a planície nunca foi obstáculo. Foi convite. Convite para os peregrinos que agora vão para Santiago, bordões na mão, repetindo caminhos que antes serviam para levar o grão ao celeiro.
A arquitectura do essencial
A Igreja Matriz está onde sempre esteve — no meio da aldeia, entre o café e a farmácia. É Imóvel de Interesse Público, o que significa que não a podem demolir para fazer uma rotunda. Pelo concelho espalharam-se capelas como quem espalha pérolas num colar partido: uma na cruz de caminhos, outra no limite da herdade, outra onde alguém fez uma promessa e cumpriu. As casas são de taipa, paredes grossas que mantêm o fresco no Verão e o calor no Inverno. Os palheiros vão ficando para trás — uns convertidos em alojamento local, outros em ruínas fotogénicas. A madeira greta, a cal descasca, e ninguém se alarma. É o tempo a trabalhar.
O sabor da lezíria
O arroz é mesmo daqui — Carolino das Lezírias, com DUO de Origem Protegida e tudo. Serve-se de pato, de lampreia quando há, ou em açorda que faz o pão ser sopa. O azeite é do lagar do Zé, que fica na Herdade dos Cases, e o borrego vem das pastagens onde os Bravo do Ribatejo pastam como se o mundo acabasse amanhã. A Pêra Rocha chega de autocarro dos pomares da Marinha Grande, mas ninguém estranha. No fim, um café no Pastelaria Central — que apesar do nome é a única — e pronto. Está feito o almoço de domingo.
Caminhar sem pressa
Os trilhos não foram feitos para si. Foram feitos para o João ir trabalhar ao campo e para a Catarina levar as crianças à escola. Que agora sirvam também para peregrinos é lucro. O Caminho Central Português passa aqui, mas nem por isso lhe puseram placas a cada cem metros. Há setas amarelas pintadas em pedras, e se chove desaparecem. A paisagem não tem drama — tem estações. Verde do arroz na Primavera, dourado dos cereais no Verão, terra nua no Inverno. Subir até à serra de São Lourenço dá trabalho, mas de lá em cima vê-se o Tejo e lembra-se que o mar não está longe.
Ao entardecer, quando o tractor do Adelino regressa à garagem e o cão do café se instala à porta, Alcoentre fica em silêncio. Não é o silêncio da ausência — é o silêncio de quem já cumpriu o que tinha a cumprir hoje.