Artigo completo sobre Lamas e Cercal: onde a Serra do Montejunto encontra o vale
Freguesia do Cadaval entre vinhas, olivais e trilhos na Área de Paisagem Protegida da serra
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O vento sobe da planície e bate nas encostas calcárias da Serra do Montejunto, trazendo o cheiro a terra seca e a resina dos sobreiros. Aqui, onde Lamas e Cercal se juntaram oficialmente em 2013 mas convivem há gerações sob o mesmo céu, a paisagem dispõe-se em patamares que todos os habitantes reconhecem: vinhas na base, olivais a meia-encosta, mato rasteiro junto aos afloramentos. A altitude média de 143 metros não diz muito aos que cá vivem, mas basta subir aos 666 metros do cimo - onde se vai pelo caminho de terra batida que passa na Portela - para ver o vale do Tejo e, em dias limpos, a fintar do Atlântico.
A geografia que molda o quotidiano
A serra não é cenário. É onde se vai buscar lenha, onde pastam os cabreiros, onde se colhem fungos no outono. Os 3409 habitantes distribuem-se por Lamas, Cercal do Alentejo e Cercal do Ribatejo, nomes que se confundem na boca dos mais velhos. As ribeiras temporárias - a Ventosa, a do Pego - secam no Verão mas ainda assim marcam o terreno como cicatrizes. Os trilhos que vão para a serra começam mesmo nas portas das casas: passa-se pelo chafariz da Boa Vista, sobe-se pela vereda onde o xisto escorrega debaixo dos pés, entra-se no sobreiral onde o alecrim cheira a pólvora quando se esfrega.
A terra soa oca debaixo das botas nos dias de grande calor. Nos caminhos entre Lamas e Cercal, o zumbido das abelhas torna-se ensurdecedor junto aos pomares - maçãs de Alcobaça na Horta Nova, peras Rocha no Vale de Maceira. As vinhas estendem-se em renques que os trabalhadores conhecem como a palma da mão, expostas a sul onde o sol queima as uvas e lhes dá o sabor a terra que se sente nos vinhos da cooperativa.
Raízes que permanecem
Lamas é onde a água parava. Cercal é onde se cercava o gado. Os nomes dizem o que era preciso saber antes de haida cartografia. Três igrejas marcam o tempo: a matriz de Lamas com a sua torre sineira que toca às sete e às sete apenas, a ermida de São Sebastião em Cercal onde se vai em procissão quando a seca persiste, os Paços do Concelho de Cercal que lembram quando esta vila teve foros.
A economia é o que sempre foi: vindima em Setembro, oliveira em Novembro, restolho em Maio. Os números contam a história que todos conhecem: os jovens vão-se embora para Lisboa ou para a construção, ficam os velhos que ainda conseguem subir à serra. As casas de cal branca vão ficando vazias, mas as que ainda têm gente conservam-se - pintam-se as paredes todos os anos, limpam-se as pedras da eira onde se secava o milho.
Produtos da terra e da da tradição
Na mercearia da Glória vende-se ginja da dona Antónia - não tem rótulo, vem em garrafas de vidro reutilizadas que ela enche na cave de casa. O queijo do João tem crosta dura porque é feito na adega onde o fumo do fogão a lenha o cura durante o Inverno. O azeite do Sr. Manuel é tão verde que mancha o pão - colhe-se à mão na quinta do Carvalhal, vai-se logo para o lagar em Cercal antes que as folhas murchem.
O turismo chega devagar. Há quartos na casa da avó que se transformaram, mas é gente que vem para caminhar na serra, que pergunta onde se come sopas de tomate com enxertia, que se senta no café Central a beber um café pingado enquanto ouve as notícias da vila.
O sol põe-se atrás da serra e tudo muda de cor - as vinhas tornam-se douradas, as pedras da igreja queimam, o céu fica da cor da groselha que a vizinha oferece no final do jantar. Quando o sino toca, ecoa pelo vale abaixo, sobe pelas ravinas, entra pelas janelas abertas das cozinhas onde ainda se cozinha com lenha. É este cheiro a fogo e a jantar que fica na roupa de quem passa por Lamas e Cercal.