Artigo completo sobre Alcabideche: da nascente árabe às colinas de Cascais
Entre a Serra de Sintra e o Guincho, uma freguesia de água e altitude com 44 mil habitantes
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O som chega antes da imagem. Um fio de água corre por dentro de pedra lavrada — é a Fonte da Vila, mandada erguer em 1843, e ainda hoje escorre com um murmúrio baixo que se confunde com o vento nas copas dos plátanos. A bica é fresca, quase cortante ao toque, e os mais velhos dizem que "quem bebe aqui nunca mais se esquece". No século XIX chamavam-lhe «Fonte Santa», porque acreditavam que curava a dor da pedra. Hoje, quem passa no Largo à hora de fechar as lojas ainda vê pessoas a encherem garrafões, contando que «é melhor que a da torneira». Estamos a cento e quinze metros de altitude, num anfiteatro de colinas que sobe até aos 377 metros da Pedra Amarela e desce até ao sal do Guincho, a três quilómetros. É uma freguesia de quase quarenta quilómetros quadrados — a mais extensa do concelho — com 44 165 habitantes, e no entanto basta virar na Estrada da Alagoa para o ruído do IKEA desaparecer e só se ouvir o ranger de um portão de quintal ou o latido distante de um cão.
Um poeta entre nascentes
Muito antes de Alcabideche se tornar freguesia, em 22 de janeiro de 1852, já o poeta árabe Ibne Mucana, no século XI, escrevia que "a terra de Alcabithecum tem águas tão generosas que até as pedras se abrem para beber". A ocupação islâmica deixou sobretudo nomes: Alcabideche, Murches, Manique. O arqueólogo amador Mário Cardoso, que morava na Rua da Liberdade, passou os anos 60 a desenterrar fragmentos de cerâmica no seu prórpio quintal — hoje a rua tem o nome dele, mas os miúdos continuam a chamar-lhe "a rua do Mário" porque é mais fácil de dizer. A antiga estrada Real para Sintra passava pela actual Estrada da Alagoa; quem vem de Cascais ainda consegue ver o desnível do lameiro onde os cavalos bebiam antes de atacar a serra. Fartapão mantém o nome que lhe deram os camponeses quando a fonte chegava a transbordar — e ainda hoje, depois de dias de chuva, a água corre tão rápida que molha os sapatos de quem se aproxima.
Pedra, azulejo e o cheiro a azeite antigo
A Igreja Matriz de São Vicente ergue-se no largo com a solidez de quem já viu o mar de telhados a crescer-lhe à volta. Lá dentro, o cheiro a cera e a roupa engomada mistura-se com o fresco da pedra. Os azulejos do século XVIII estão gastos mesmo ao nível dos ombros — é onde as pessoas se apoiam para rezar. A Capela de Nossa Senhora do Cabo, no cimo da Serra da Carregueira, recebe quem sobe a pé no dia 22 de janeiro; os mais velhos fazem-no de joelhos, mas os jovens vão de ténis e param a meio para tirar fotos ao estuário. No antigo Lagar de Azeite de Manique, a prensa de madeira ainda tem marcas de azeite que ninguém ousou limpar; quando abres a porta o cheiro é tão intenso que se sente na garganta. A Quinta da Alagoa, agora sede de uma empresa de informática, mantém o jardim aberto aos domingos — os guardas conhecem os miúdos de cor e deixam-nos jogar à bola no relvado desde que não partam as estátuas.
Chanfana no barro, Ramisco no copo
Na Tasca do Chico, a chanfana vem num tão negro que parece café. O Chico serve-a sem desculpa: "É isto ou nada". A carne desfaz-se antes do garfo tocar, e o molho agarra-se ao pão de Manique como se fosse cola. O vinho é servido em copos pequenos, às colheres, porque "assim bebe-se mais devagar". As queijadas de Murches vêm embrulhadas em papel de alumínio que as avós desdobram com cuidado — a massa é tão fina que se vê o recheio. Quem não conhece pensa que é encomenda, mas é a vizinha da esquina que as faz em casa e traz na sexta-feira. O Pão de Manique tem uma côdea que faz estalar o maxilar; o miolo é amarelo do milho e o cheiro a lenha fica nos dedos. Na feira anual de outubro, o stand da Cooperativa vende mel que ainda tem pedaços de favo — o rapaz diz "é para provar que é verdadeiro", mas é sobretudo porque não tem paciência para o filtrar.
Moinhos, javalis e o estuário ao fundo
O Trilho dos Moinhos começa no cruzamento onde o café "O Sinal" ainda abre às 6h para os caçadores. São oito quilómetros de porta em porta: passa-se pelo moinho do Penedo, onde o Zé da tasca guarda garrafas de aguardente dentro da torre, e pela Levada, onde as crianças se banham mesmo com o aviso a dizer "perigo de afogamento". No miradouro da Pedra Amarela vê-se o estuário como se fosse uma faca de prata, e o vento é tal que os telemóveis voam se não se agarrarem. Na Mata de Manique, os javalis aparecem ao entardecer — não são os da televisão, são mais pequenos e correm assim que cheiram tabaco. A Ribeira de Alcabideche tem um cheiro a cio e a rocha húmida que se sente na boca; os pescadores dizem que ainda há enguias, mas ninguém as vê há anos.
O jazz, o cante e o primeiro domingo do mês
Raul Indipwo tem uma placa na rua onde viveu a avó — é ao lado do talão do pão, e quem compra o jornal nem repara. O cante ao desafio começa sempre com o mesmo homem de chapéu, que se queixa da garganta mas nunca falha. No primeiro domingo do mês, o mercado ocupa o parque da Junta: a Maria vende alfaces com terra agarrada porque "assim duram mais", o António traz ovos com uma caneta para escrever a data, e o filho do Manel já aceita MB Way mas continua a dar troco em balas quando acabam as moedas. Quem desce o Trilho dos Moinhos às cinco da tarde chega à Malveira com a roupa a cheirar a esteva e os pés a pedirem um imperial no "O Pátio". E é ali, com a cerveja a escorrer pelo copo e o sol a por-se-se por trás da serra, que se percebe: em Alcabideche, a água — nas fontes, na ribeira, na bruma que sobe — é só o pretexto para voltarmos.