Artigo completo sobre Estrela: onde a cúpula barroca encontra o jardim romântico
A freguesia lisboeta que nasceu de um voto real e cresceu entre tílias centenárias e palácios urbano
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A primeira coisa que se ouve é o silêncio dentro do ruído. Estamos a oitenta e quatro metros acima do nível do Tejo, e a cidade ressoa lá em baixo — eléctricos, buzinas, o murmúrio contínuo de uma capital que não pára. Mas aqui, sob a sombra de uma tília centenária no Jardim da Estrela, o som dominante é outro: o ranger de um ramo ao vento, o bater seco de uma bola no saibro, o chilrear desordenado que desce das copas. A luz de fim de manhã atravessa a folhagem e projecta no chão um mosaico de clarões e sombras que se move devagar, como se respirasse.
É neste intervalo — entre a agitação de Lisboa e a quietude improvável de um jardim romântico inaugurado em 1852 — que a freguesia da Estrela se revela. Não como refúgio, mas como camada. Porque tudo aqui é sobreposição: quintas e chácaras absorvidas pela expansão urbana do século XIX, palacetes que cederam lugar a prédios de rendimento, ruas que guardam na toponímia e na cantaria a memória de uma cidade anterior.
O voto de uma rainha e a pedra que o cumpriu
A Basílica da Estrela é, antes de mais, um acto de vontade. D. Maria I mandou-a construir em 1779, após o nascimento do seu primeiro filho José, em cumprimento de um voto feito em 1777. É um dos raros templos em Portugal erguidos por ordem de uma rainha, e essa singularidade marca-lhe o carácter. A fachada é rococó, trabalhada com a minúcia de quem quer que a pedra fale, e a cúpula, barroca, domina a linha do horizonte ocidental de Lisboa com uma presença que não se impõe pela altura mas pela massa — branca, redonda, sólida contra o azul.
O nome da freguesia vem precisamente daqui: da Igreja da Estrela, dedicada a Nossa Senhora da Estrela, e da lenda de uma estrela que teria guiado os trabalhadores durante a construção. Lenda ou não, há algo de orientação neste lugar — quem sobe aos 114 degraus da cúpula encontra Lisboa inteira estendida a seus pés, desde o casario denso de Alfama até à mancha verde de Monsanto, com o Tejo a sulcar tudo ao meio como uma artéria de prata. O ar lá em cima cheira a calcário aquecido pelo sol e a distância. Os pés sentem a vibração surda da pedra, e o vento, mesmo nos dias mais calmos, insiste numa brisa constante que vem do rio.
Sob as copas do jardim romântico
Do outro lado da rua, o Jardim da Estrela funciona como contrapeso. Se a Basílica é verticalidade e solenidade, o jardim é horizontalidade e deambulação. Traçado por José Nunes da Cunha em 1852 ao gosto romântico, com caminhos sinuosos entre canteiros de espécies exóticas e árvores centenárias cujos troncos já têm a textura rugosa e escura de coisa antiga, o espaço convida a um ritmo diferente. O coreto de ferro fundido, mandado vir por molde de Glasgow em 1884, é uma peça de engenharia decorativa que continua a servir de palco e de ponto de encontro. Nos bancos em redor, idosos lêem jornais com a mesma solenidade de quem celebra um ritual; famílias desdobram toalhas sobre a relva; alguém desenha num caderno. A freguesia conta com 5.714 residentes acima dos sessenta e cinco anos e 2.987 jovens até aos catorze — e é no jardim que estas duas pontas da demografia se cruzam com mais naturalidade, entre o café da esplanada e o escorrega junto ao lago.
Não é por acaso que o jardim tem servido de cenário para produções de cinema e televisão internacionais. A luz que aqui se filtra pelas copas tem uma qualidade particular — difusa, dourada ao fim da tarde, com um contraste suave que os directores de fotografia reconhecem de imediato.
Camadas de cal e cantaria
A Estrela é uma freguesia densa — 4.448 habitantes por quilómetro quadrado distribuídos por 460 hectares — mas essa densidade não se traduz em sufoco. As ruas que irradiam da Basílica e do Jardim conservam palacetes do século XIX, com varandas de ferro forjado e fachadas de azulejo que alternam entre o verde-garrafa e o amarelo-torrado. Entre eles, edifícios de arquitectura tradicional lisboeta, com as suas cantarias de calcário lioz e portadas de madeira pintada, mantêm uma escala humana que a verticalidade moderna ainda não engoliu. São 21 os monumentos classificados na freguesia — quatro deles Monumentos Nacionais, onze Imóveis de Interesse Público — o que faz desta zona um dos territórios patrimoniais mais concentrados da capital.
Caminhar por estas ruas é percorrer um catálogo involuntário da história construtiva de Lisboa: do barroco setecentista da Basílica ao romantismo do jardim, dos palacetes liberais às habitações burguesas de finais de Oitocentos, tudo coexiste numa proximidade que dispensa museus — a cidade é, ela própria, a exposição.
De Santiago ao Tejo, com paragem na esplanada
A Estrela integra o traçado de vários percursos do Caminho de Santiago — o Caminho da Costa, o Caminho Interior pela Via Lusitana, o Caminho de Torres e o Caminho de Fátima cruzam ou tangenciam esta zona de Lisboa. É uma paragem de peregrinos que raramente aparece nos guias de peregrinação, mas que oferece o que qualquer caminhante de longa distância mais deseja: sombra, água, um banco onde largar a mochila. Os 716 alojamentos registados na freguesia — entre apartamentos, estabelecimentos de hospedagem, hostels, moradias e quartos — confirmam que a Estrela é também um lugar de acolhimento, preparado para receber quem chega de fora. A região vinícola de Lisboa, em que a freguesia se insere, garante que o copo ao final do dia tem identidade própria — um branco fresco ou um tinto de corpo ligeiro que acompanha bem a gastronomia que se encontra nos restaurantes das ruas adjacentes.
Sendo Lisboa porta de entrada para produtos de todo o país, não é raro encontrar nas mesas da Estrela queijos como o Serra da Estrela DOP ou o Azeitão DOP, presunto do Alentejo DOP, ou até uma fatia de Pão de Ló de Ovar IGP a rematar a refeição. A cidade funciona como montra nacional, e a Estrela, com a sua vocação residencial e de bairro, absorve essa oferta com a naturalidade de quem compra no mercado do dia.
O eco do ferro no coreto vazio
Há um momento, ao fim da tarde, em que o Jardim da Estrela se esvazia quase por completo. A luz desce para tons de cobre, as sombras das árvores alongam-se sobre o saibro, e o coreto fica ali — vazio, com a sua estrutura de ferro a estalar levemente sob a diferença térmica do dia que arrefece. É um som mínimo, quase imperceptível, que se confunde com o crepitar das folhas secas sob os pés de quem ainda passeia. A cúpula da Basílica, visível por entre os ramos, apanha os últimos raios e brilha com uma brancura rosada que dura exactamente o tempo de uma inspiração longa. Depois, apaga-se. E a Estrela acende-se por dentro — candeeiros de rua, janelas iluminadas, o halo amarelo da esplanada do jardim — como se respondesse ao céu com a sua própria constelação doméstica.