Artigo completo sobre Camarate, Unhos e Apelação: três memórias rurais
Moinhos do século XVIII, vinhas em xisto e talha dourada resistem à densidade urbana de Loures
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O primeiro som que se distingue na Rua dos Moinhos não é o trânsito da A1 nem o rugido dos aviões. É um murmúrio mais antigo — como quando se deixa correr a torneira ao fundo da cozinha e se ouve, no silêncio da casa, o fio de água a cair na pia. É a ribeira que passa rente aos três moinhos do século XVIII, hoje casas de gente mas ainda com as paredes grossas como pão de milho e a pedra escurecida como azeite na garrafa. Há qualquer coisa de teimoso nesta freguesia: 33 500 habitantes, quase três mil por quilómetro quadrado, e ainda se encontram vinhas em terraços de xisto entre prédios de cinco andares. É como ter um pé de tomate no quintal da casa arrendada — não serve para a renda, mas dá os tomates do saladão.
Três aldeias dentro de uma cidade
A união é de 2013, mas cada bairro tem a sua ruga. Camarate apareceu nos papéis com D. Afonso III, meio século antes de o bacalhau ser moda. Unhos, que em latim queria dizer olival, ainda tem pomares de laranja que sobrevivem como o guarda-chuva na mala da avó — já não se usa, mas lá está. Apelação cresceu à volta da igreja de Santo António como miudagem à volta do autocarro das excursões. Escavaram lá um poço romano em 1998: dois mil anos de gente a beber água no mesmo sítio, só que agora é em garrafa de plástico.
Talha dourada e cal que respira
Entrar na Igreja Matriz de Camarate é passar de uma rua onde se ouve o busum do autocarro para um silêncio denso, como quando se entra num cinema e ainda se está à espera que comece o filme. A talha barroca concentra a luz como a torradeira concentra o pão: tudo no sítio certo para dourar. Em Apelação, o retábulo de Santo António, ao fim da tarde, fica incandescente como o forno do Zé da padaria quando ele se esquece do tempo. Em Unhos, a igreja é mais modesta — aquela cor de parede que só pinta quem herdou a lata da tia. Os cruzeiros de pedra no meio das cruzetas são como os postes de electricidade: já ninguém lhes dá importância, mas foram os primeiros a marcar o caminho.
Pão de forno comunitário e vinho de Bucelas
Ao domingo, a Praça de Apelação cheira a forno como às segundas-feiras cheira a roupa a ferro. O pão de massa-mãe tem a crosta espessa como a bota do pai e, quando se parte, faz o mesmo estalo da porta da avó a fechar. Serve-se com vinho de Bucelas — leve, ácido, aquela coisa que até quem não gosta de branco bebe sem torcer o nariz. Com o cozido, lembra o caldo da sopa no dia seguinte: ainda é o mesmo prato, mas já é outra história. Para sobremesa, as queijadas de Camarate são daquelas que se comem em dois dentes e depois se guarda o papel de prata no bolso — não por economia, mas por memória.
Garças-reais e setas amarelas
O Parque Urbano de Camarate tem onze hectares, o mesmo que onze campos de futebol mas sem árbitro nem adeptos. De manhã cedo, as garças-reais são os únicos pescadores que não precisam de licença. A via verde para o Trancão é a antiga linha de caminho de ferro: onde passava a locomotiva, agora passa a BTT do vizinho. Na Serra da Ameixoeira, o trilho são cinco quilómetros — o mesmo que se faz para ir ao café mais longe, mas com melhor paisagem. No cimo, o miradouro mostra o Tejo como uma fita prateada que alguém deixou cair do bolso.
Festas que sabem a pólvora e a manjerico
A 13 de Junho, Apelação cheira a manjerico como as escolas cheiram a lanche: não se vê, mas sabe-se que está lá. Em Agosto, Unhos bênção o pão como quem bate à porta antes de entrar. Em Setembro, o fogo de artifício de Camarate faz o mesmo barulho da romã estoirada na passagem de ano — mas aqui ninguém leva tombo. No Natal, os presépios vivos de Apelação ocupam garagens como os presuntos occupam as cave: é preciso é não se esquecer onde se deixou.
Ao cair da noite, quando o último avião risca o céu como caneta esferográfica em caderno novo, ainda se ouve — se se parar, como quem vai a meio da rua e se lembra que esqueceu o telemóvel — o fio de água da ribeira. É esse som, mais do que qualquer estátua, que diz que antes do betão, antes do aeroporto, antes de existir o código postal, havia aqui um vale, uns olivais e água a correr como o tempo que não espera por ninguém.