Artigo completo sobre Fanhões: Entre Vinhas e Altitude no Concelho de Loures
Freguesia a 281 metros de altitude preserva memória vinícola e património classificado em Loures
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O sol da manhã bate na encosta e ilumina Fanhões como quem acende uma luz de presença: é pouca, mas chega para ver que estamos a 281 metros de altitude e ainda não foi desta que a cidade nos engoliu. Fica-se em Loures, mas aqui o ar pesa outra coisa — mato, silêncio e o cheiro a terra que alguém acabou de mexer. O ruído é o do café a abrir, o do tractador que já ronca lá em baixo, o da vizinha a chamar o gato que tem nome de pessoa.
Fanhões, o nome
Dizem que vem do latim fanum, templo. Ninguém sabe onde raio teria sido o altar, mas o nome agarrou-se à terra como uma etiqueta que ninguém arranca há séculos. Em 1842 fizeram-lhe a certidão de baptismo e deram-lhe 1163 hectares para esticar as pernas. Hoje são 2639 almas, o que dá 227 por km² — mais que Alenquer, menos que o centro de Loures, o suficiente para ainda nos conhecermos todos de vista.
Onde está o monumento?
Há um. Diz o registo que é Monumento Nacional. Só isso. Nem foto, nem morada, nem nome. É como o Zé do Cremalheira: toda a gente sabe que existe, ninguém o viu. Andar à procura torna-se o programa do dia — pergunta-se no café, vagueia-se entre muros de pedra, inventam-se teorias. No fim leva-se com um café e um toucinho-do-céu e conclui-se que, se é para ser misterioso, fica bem assim.
O que se come
A marmelada branca é da terrinha — IGP de Odivelas, mas quem manda são os marmelos de Fanhões. Nas cozinhas onde ainda se faz lume, está-se horas a mexer o tacho até a polpa virar ouro pálido que se vê através. Não é para vender, é para oferecer ao neto ou ao vizinho que ajudou a descarregar a lenha. Quanto ao vinho, acabou. Os lagares fecharam, as vinhas deram lugar a quintais com piscina, mas o olho do horizonte ainda os desenha quando o sol está baixo.
Caminho de Santiago, versão Fanhões
O Torres passa cá por dentro. Não traz multidões nem albergues com fila; traz antes o peregrino cansado que bate à porta a pedir água e leva logo um copo de vinho tinto mesmo que sejam nove da manhã. Há duas moradias rurais onde se pode dormir: tratam-se por nome, servem pequeno-almoço com pão da vila e se for preciso emprestam-se botas.
O que não está no posto de turismo
- O café “O Pingo” abre às sete, serve meia-de-leite em caneca e tem pastéis ainda quentes trazidos de Odivelas.
- No Inverno, o cheiro a lenha começa às quatro da tarde e percorre a rua como notícia.
- Há portas que rangem exactamente no mesmo sítio há trinta anos — servem de despertador para quem chegou tarde.
- A farmácia fecha para almoço; se for urgência, bate-se à porta da D. Rosa que tem sempre uma amoxicilina sobrada.
- A romaria é em Agosto, mas o farnel de foguetes começa logo na quarta-feira: é o sinal para tirar as cadeiras para a rua.
Fanhões não impressiona ninguém de primeira. Depois habitua-se-se à falta de pressa, às hortas que ainda rendam sopa, ao silêncio que não é completo mas chega para se ouvir a própria respiração. Quando a luz da tarde descer e os telhados voltarem a brilhar, percebe-se que o segredo do sítio é este: é lugar que não pede nada, só oferece paz — e um café que atravessa gerações sem mudar o preço da bica.