Artigo completo sobre Lousa: Pão Quente e Caminhos Antigos na Serra
Freguesia junto ao Trancão onde o forno comunitário ainda aquece e a Ponte de D. João V resiste
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O pão acaba de sair do forno comunitário e o cheiro espalha-se pela praceta como se fosse notícia. É setembro, a Festa do Pão está aí, e as mulheres ainda alinham os tabuleiros como quem arruma o mundo. As formas redondas estalam quando se partem, a casca dourada faz um som seco — o mesmo que os pés fazem no adro calcetado. Ao fundo, o cruzeiro de 1642 projecta sombra curta. É meio-dia, o sol cai a pique sobre a Serra da Carregueira, e Lousa acorda devagar, ao ritmo dos olivais que descem em socalcos até ao Trancão.
A raiz no bosque sagrado
Dizem que o nome vem do latim lucus, bosque sagrado. Talvez. O que sei é que ainda hoje a freguesia respira como quem tem os pés na terra e a cabeça na sombra das árvores. Surgiu no século XIII, quando os campos do vale eram grão e vinha, e os caminhos que subiam de Lisboa paravam aqui para descanso. A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, erguida no século XVI sobre uma capela medieval, guarda esse tempo no portal manuelino e nos azulejos que cobrem as paredes como se fossem azulejos de cozinha, mas com mais jeito. A talha dourada do retábulo brilha quando a luz entra pelas janelas altas, recortando o ar denso de incenso e cera — o mesmo cheiro que se sentia há quinhentos anos, suponho.
A três quilómetros, a Ponte de Lousa estende dois arcos desiguais sobre a ribeira. Construída no século XVIII, servia a antiga Estrada de D. João V — a mesma que ligava Lisboa ao Convento de Mafra. Conta-se que o rei mandou erguer tabernas junto à ponte para alimentar os trabalhadores que transportavam pedra e cal. Os mapas antigos registavam o lugar como "Lousa da Boa Viagem", ponto de descanso dos peregrinos que iam para Santiago. Ainda hoje o Caminho de Torres atravessa a freguesia durante cinco quilómetros de trilho rural, entre muros de xisto e hortas cercadas. É como andar no tempo, mas sem os problemas da época.
Tradição que se prova
A cozinha lousense é o que é: hortícola da época e porco de montanheira. As sopas de hortelã com ovo escalfado fumegam nas tigelas de barro, o ensopado de enguias do Trancão cheira a coentros de longe, o cabrito assa em forno de lenha até a pele estalar como pastilha elástica. As migas às pobre — couve refogada com toucinho e azeite — acompanham os pratos de carne, e o vinho branco de Bucelas corta a gordura como navalha.
Nos tachos de cobre de algumas agropastorizias ainda se faz a marmelada branca de Odivelas, IGP que define a doçaria da região. Os bolos de azeite, recheados com doce de gila, vendem-se na mercearia tradicional, embrulhados em papel vegetal como se fossem presentes. No café O Serrano, a marmelada acompanha fatias de queijo fresco e um copo de moscatel — combinação que fecha as tardes de domingo como se fosse um ponto final.
Entre colinas e ribeiros
O território estende-se por colinas onduladas a 227 metros de altitude, cobertas de olivais, vinhas e pomares de citrinos. Nos vales correm o Trancão e a Ribeira de Alcoentre, bordejados por matagais de esteva e sobreiros dispersos. O Trilho da Lousa — oito quilómetros circulares — sobe o Cabeço de Montachique e desce à ponte, atravessando campos onde ainda pastam rebanhos conduzidos pelos "campinos de Lousa", modalidade local de lide equestre praticada ao som de gaita transversal. É como ver um filme, mas sem pipoca.
Ao amanhecer, o nevoeiro acumula-se nos vales e sobe devagar, dissolvendo-se quando o sol aquece a encosta. As aves rupícolas cantam nos muros de pedra seca, e a flora mediterrânica — alecrim, tomilho, rosmaninho — perfuma o ar à medida que os passos esmagam as folhas secas no caminho. É como andar num banho de vapor, mas ao ar livre.
O que fica
A praceta da igreja esvazia ao fim da tarde. Resta o som metálico do sino às seis horas, o murmúrio baixo de conversa no alpendre, o cheiro a lenha que sai das chaminés quando a noite arrefece. Na Ponte de Lousa, a água corre lenta sobre as pedras do leito, e os arcos desiguais reflectem-se na superfície escura. É esse contraste — a permanência da pedra, a fluidez da corrente — que define Lousa: um lugar onde o gesto antigo ainda faz sentido, onde o pão se coze à mão e o caminho se percorre a pé. Como tudo o que é bom, é simples.