Artigo completo sobre Santo António dos Cavaleiros e Frielas: memória agrícola
Entre o Trancão e a Cidade Nova, duas freguesias onde a história rural resiste ao betão urbano
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A água corre turva e mansa sob a ponte de Frielas, e o som que faz não é propriamente um murmúrio — é mais um arrastar lento, como se o rio Trancão carregasse ainda, na memória da corrente, o peso dos barcos chatos que outrora levavam couves e nabos até às bancas de Lisboa. A manhã de setembro chega com um ar denso, ligeiramente húmido, que paira sobre os canteiros do Jardim do Lago antes de o sol, ainda baixo, começar a aquecer o betão claro dos prédios de Santo António dos Cavaleiros. Não há maresia aqui — estamos a quarenta e sete metros de altitude, no interior da margem norte do Tejo —, mas há uma brisa que vem do vale, que traz consigo o cheiro vegetal da terra irrigada que sobrevive nas parcelas agrícolas de Frielas, e que lembra que esta não foi sempre uma paisagem de urbanização densa.
O brasão que saiu de uma escavação
Nos anos sessenta, quando as máquinas rasgavam a terra para erguer a Cidade Nova — o grande projecto habitacional que transformou Santo António dos Cavaleiros —, surgiu entre os escombros um brasão de armas da família Flamenga, cavaleiros de outra era. A peça serviu de inspiração directa para a heráldica da freguesia, como se o solo insistisse em devolver ao presente o que lhe pertencia. E a verdade é que esta terra insiste mesmo. A estação arqueológica do Casal do Monte empurra a ocupação humana até ao Paleolítico, e em Frielas os vestígios romanos e árabes acumulam-se sob camadas de cal e de séculos. Foi aqui, em 1401, no Paço Real contíguo à igreja de Frielas, que Afonso I, Duque de Bragança, casou com Beatriz Pereira de Alvim — um casamento que ajudou a desenhar o mapa político de Portugal. A igreja ainda está de pé, e o granito das suas paredes guarda uma frieza que contrasta com o calor seco do Verão lisboeta, mesmo em dias de céu aberto e sem nuvens.
Um convento franciscano entre blocos de apartamentos
O Museu Municipal do Conventinho é, talvez, a imagem mais inesperada desta união de freguesias. Um antigo convento franciscano do Espírito Santo — paredes grossas, silêncio conventual, um pátio onde a luz da tarde se derrama oblíqua — encaixado no tecido urbano de Santo António dos Cavaleiros como uma peça de outro puzzle. Lá dentro, o ar é fresco e parado, com aquele cheiro a pedra antiga e a madeira que só os espaços de séculos conseguem fabricar. É o principal equipamento cultural da freguesia, e funciona como âncora de memória num território onde vivem mais de vinte e oito mil pessoas, onde a densidade ultrapassa os três mil habitantes por quilómetro quadrado, e onde os mais jovens — quase quatro mil e quinhentos com menos de catorze anos — crescem a poucos metros de ruínas que os precedem em milénios.
Marmelo, vinho e o rio que era estrada
A vocação agrícola de Frielas não desapareceu por completo. A terra aqui é fértil, alimentada pelo vale do Trancão, e a tradição hortícola persiste em parcelas que resistem à pressão imobiliária. A freguesia insere-se na região vinícola de Lisboa, com ligação às sub-regiões de Bucelas, Carcavelos e Colares — vinhos brancos de acidez mineral que pedem peixe grelhado e tardes longas. E depois há a Marmelada Branca de Odivelas IGP, produto de indicação geográfica protegida cuja doçura densa, quase granulada, funciona como sobremesa e como declaração de identidade regional. Quem percorre o Caminho de Torres, a variante do Caminho de Santiago que atravessa este território, leva nos pés a poeira deste solo e, se tiver sorte, no estômago a memória desse marmelo transformado.
A cidade-jardim e os seus verdes sobreviventes
O conceito de "Cidade Jardim" que presidiu à urbanização de Santo António dos Cavaleiros não é apenas um rótulo de promoção imobiliária — é visível. O Parque Urbano da Encosta desce em socalcos verdes onde os plátanos fazem sombra cerrada, e o Jardim do Lago oferece um espelho de água onde os reflexos dos prédios circundantes se desfazem em ondulações mínimas quando o vento sopra. São espaços de respiração num tecido compacto, e ao fim da tarde enchem-se de famílias, de passeios de cão, de conversas em bancos de betão aquecidos pelo sol do dia inteiro.
Os Frieleiros ainda dançam
Há mais de quarenta anos que o Rancho Folclórico e Etnográfico os Frieleiros mantém viva uma tradição que poderia facilmente ter sido engolida pela expansão suburbana. Nos fins de Agosto, quando as Festas de Santo António tomam o Jardim da Avenida João Branco Núncio nos dias 29 e 31, os sapateados e os acordeões dos Frieleiros cruzam-se com o cheiro a sardinha e a noite quente de final de Verão. É uma festa que não tenta ser outra coisa senão o que é: uma comunidade a reconhecer-se a si própria.
Ao cair da noite, quando os últimos passos se arrastam pelo tabuleiro da ponte de Frielas e o Trancão escurece até se confundir com as suas margens, fica no ar um som quase imperceptível — não é o rio, não é o trânsito distante da cidade, é o ranger seco de uma cancela de quintal algures entre as hortas, uma dobradiça que ninguém oleou e que, por isso mesmo, continua a anunciar cada entrada e cada saída, como um sino doméstico que se recusa a calar.