Artigo completo sobre Moita dos Ferreiros: forjas, lagares e romarias na Serra
Conheça Moita dos Ferreiros, na Lourinhã, Lisboa: terra de ferreiros, lagares centenários e romarias que celebram a tradição serrana do Oeste.
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O cheiro a lenha queimada mistura-se com o aroma doce da esteva ao longo da estrada que sobe até à Serra do Bouro. No adro da igreja, o chafariz setecentista goteja água fria sobre a pedra gasta, enquanto o vento traz o tinir metálico de um chocalho perdido — eco das velhas chocalhadas do Entrudo, quando os mascarados percorriam as aldeias ao som de concertinas. Moita dos Ferreiros ergue-se sobre um planalto a 125 metros de altitude, entre olivais centenários e sobreiros de casca grossa, num território onde o ferro e a terra moldaram gerações de artesãos e lavradores.
O peso do ferro e da pedra
O nome da freguesia nasce da aliança entre geografia e ofício: "Moita", o monte coberto de mato que se vê da estrada, e "dos Ferreiros", lembrança das forjas que aproveitavam os recursos locais para moldar ferraduras, grades e portões. Manuel dos Santos, mestre forjador nascido em 1879, deixou a sua marca nos ferros trabalhados da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição e nas pontes que ainda atravessam as ribeiras do vale. O interior do templo, reformado no século XIX, guarda retábulos barrocos e painéis de azulejo setecentistas que reflectem a luz das velas nas tardes de Inverno. No lugar de Pinhôa, cruzeiros de pedra pontuam o caminho entre casas senhoriais de piso e meio, com platibandas em cantaria que resistem ao sol e à chuva há mais de duzentos anos.
Nos lagares de lagarto de Casal da Lapa e Casal Vale da Eira, o granito conserva as marcas dos pés que pisaram uvas durante séculos. Em setembro, algumas dessas estruturas voltam a encher-se de mosto, quando pequenos grupos de vizinhos e visitantes repetem o gesto antigo da vindima comunitária, produzindo o vinho tinto "Lourinhã" que envelhece em adegas familiares escavadas na rocha.
Romarias, pão partido e danças de chocalhos
No primeiro domingo de maio, a Romaria de Nossa Senhora da Conceição transforma o adro num palco de procissões e bênçãos às terras. Na véspera, o Círio dos Enfermos acende centenas de velas que tremem ao vento da noite, enquanto as rezas se misturam com o crepitar da cera. A 3 de fevereiro, na Festa de S. Brás, as mulheres partem pão à porta das casas e abençoam frutas que depois distribuem aos vizinhos — gesto de partilha que atravessa gerações.
Mas é no Entrudo que a freguesia revela a sua faceta mais ancestral: grupos de homens mascarados percorrem os caminhos ao som de chocalhos e concertinas, numa "Chocalhada" que desperta o lugar do silêncio do Inverno. Na noite de Natal, a Ceia das Lapas reúne famílias e visitantes em longas mesas onde se servem ensopados de borrego cozidos lentamente sobre pão alentejano, açordas de sável pescado na ribeira e chanfana de bode fermentada em vasos de barro.
Entre sobreiros e pegadas do Jurássico
A Serra do Bouro ergue-se a 235 metros, coroada por matos de esteva e pelos esqueletos de moinhos de vento que outrora moíam o grão da região. Um deles, raro exemplar de capota móvel, mantém-se de pé no cimo, vigiando o vale onde a Ribeira de Vale de S. Domingos desenha pequenas cascatas e poços de água fria. O Trilho dos Moinhos, circular de oito quilómetros, liga esses vestígios de pedra e cal a miradouros de onde se avista a planície até ao mar.
A norte da freguesia, afloramentos do Jurássico superior revelam pegadas de dinossauro fossilizadas há 150 milhões de anos, integradas nos roteios do Geopark Oeste. Tocar nessas marcas impressas na rocha é confrontar a escala geológica do tempo — o mesmo que permitiu aos sobreiros centenários da Mata de Pinhôa crescerem durante três séculos, fornecendo cortiça de alta qualidade que ainda hoje se extrai com cuidado.
Memórias impressas na cal e no barro
Na década de 1950, o adro da igreja transformava-se em cinema ao ar livre: lençóis brancos serviam de tela para projectar filmes que atraíam gente de toda a comarca. Hoje, o silêncio voltou, pontuado apenas pelo murmúrio das conversas na feira mensal de gado e artesanato que, no primeiro sábado de cada mês, recupera a tradição do foral de 1682. No atelier de oleiro de Casal da Lapa, as mãos ainda moldam o barro da ribeira, repetindo gestos que o Padre Joaquim de Sousa Pinto terá observado enquanto fundava a primeira escola noturna de alfabetização para adultos, no final do século XIX.
Ao cair da tarde, quando o sol rasante incendeia a cal das casas e o vento traz o cheiro a azeite virgem das oliveiras do vale, o lugar de Cantarola justifica o nome: é o eco dos trovadores que pernoitavam na antiga Estrada Real, cantando romances que Maria da Conceição Mestre ainda gravou para o Museu de Etnologia. Esse canto persiste nas broas de milho e mel que arrefecem sobre as mesas, no tinir dos copos de aguardente de medronho, no ranger das portas de madeira gretada pelo tempo — sons que não precisam de pressa para fazer sentido.