Artigo completo sobre Reguengo Grande: pomares e caminhos no interior da Lourinhã
Reguengo Grande na Lourinhã combina pomares de Maçã de Alcobaça e Pêra Rocha com o Caminho de Santiago. Território integrado no Geopark Oeste da UNESCO.
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A luz da manhã chega como quem entra na tasca sem bater: espalha-se sobre os campos largos e faz sombras compridas entre as macieiras. O vento que sobe do mar — são oito quilómetros, mas cheira tão perto que até parece que está à porta — traz o cheiro a terra molhada e avisa: «Ou levas capa ou levas chuva». Aqui, no interior da Lourinhã, o tempo não anda, pedala: na primavera as macieiras rebentam de rompante, no outão os camionistas param na estrada para comprar caixas de Rocha directamente ao produtor, no Inverno até os cães se recolhem mais cedo.
Reguengo Grande são quinze quilómetros quadrados de subidas e descidas que fazem as máquinas de venda automática beberem mais gasóleo. Estás a 147 metros de altitude, o suficiente para veres o mar ao fundo — mais parece uma tira de prata que alguém esqueceu no horizonte — e para leste os montes que impedem o vento de levar as ameixeiras. Passa por cá a variante costeira do Caminho de Santiago: uns vão de mochila aos ombros, outros param só para mijar atrás das sebes. As pedras dos muros estão tão polidas que até os peregrinos já lhes deram nome: «Pedras dos Ingleses», dizem, porque foi um de Liverpool que caiu aqui um dia e partiu o dente da frente.
A geografia do sabor
O que se planta aqui não é só fruta: é cartão de visita. Maçã de Alcobaça IGP e Pêra Rocha do Oeste DOP — isto não é marketing, é o que está escrito nos papelotes que os produtores amarram nas caixas quando as descarregam no mercado de Queluz às quatro da manhã. Os pomares parecem filas de soldados rústicos: troncos tortos, galhos que parecem braços a pedir descanso. No fim do Verão o peso da fruta curva os ramos e o ar fica doce que nem confissão. É um cheiro que se cola à roupa e que te faz voltar à infância quando a mãe punha pera no jarro da cozinha.
A freguesia entra no Geopark Oeste — gente da UNESCO veio, posou para a fotografia, comeu sopa de pedra e foi embora com uma garrafa de moscatel. O calcário que aparece nas encostas é como o livro de contas do restaurante: lê-se em camadas e diz-te quantas vezes o mar entrou e saiu daqui antes de decidirmos ficar.
Viver entre dois tempos
Mil quatrocentos e oitenta e seis habitantes, diz o ine. Na prática são menos, porque uns estão em Lisboa à segunda e só regressam ao fim-de-semana para ver se a lenha ainda está seca. Crianças há 174 — dá para duas turmas do 1.º ciclo e para encher o parque de jogos ao fim da tarde, quando as mães gritam que o jantar está na mesa. Os mais velhos, 446, são o Google local: sabem onde nasce a fonte que nunca seca, que enxerto deu a macieira que ainda dá fruta em Novembro, e por que é que o cemiterio tem duas campas com o mesmo nome e datas diferentes.
Há 27 casas marcadas no Airbnb. A maioria é de lisboetas que as esticaram, puseram wi-fi e uma tabua de cortiça na parede. Quem cá dorme acorda às sete com o galo do vizinho — não é mitico, é o tal que o Zé Manel trocou por uma garrafa de medronho. O pequeno-almoço prova a pão que a Cláudia vai buscar às 6h à padaria e a marmelada que voltou a ferver porque ninguém a queria ver desperdiçada.
A tarde desce devagar, cor de chávena de té deixada muito tempo. O sino da igreja não toca, cospe: são três badaladas secas que viajam pelo vale e avisam que são cinco e meia. Ao longe, a carrinha do pão levanta uma nuvem de pó que fica suspensa como promessa não cumprida. Depois do silêncio é que se ouve o que interessa: o raspar de uma pá no chão, a porta do bar que se abre, o copo que bate no balcão de mármore. Aqui o tempo não vem no relógio: vem na macieira que amadurece, no cheiro a fumo que sai das chaminés e na conversa que se prolonga até a sombra da nogueira tocar no muro da escola.