Artigo completo sobre Vimeiro: onde Wellington venceu Junot em 1808
Freguesia da Lourinhã preserva memória da batalha decisiva da Guerra Peninsular
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O vento sobe do Atlântico, traz consigo o sal e o rumor distante das ondas. Aqui, nos campos ondulados que se estendem entre o mar e a serra de Montejunto, a luz cai oblíqua sobre vinhas e pomares de macieiras, e o silêncio só é quebrado pelo canto intermitente de um melro. Mas há dias em que a paisagem se enche de outro som: o estrondo seco de mosquetes, o rufar grave de tambores, o grito de comando em inglês e francês. Vimeiro, freguesia de 1565 habitantes a 39 metros de altitude, guarda na memória do terreno calcário a mais decisiva batalha da Guerra Peninsular travada em solo português.
Quando Wellington escolheu o outeiro
A 21 de agosto de 1808, Sir Arthur Wellesley — que viria a tornar-se Duque de Wellington — posicionou as suas peças de artilharia no topo de um outeiro estratégico. Dali dominava-se o vale, os caminhos de acesso, a linha de fogo. As tropas francesas de Junot avançaram pelos campos abertos, e o combate durou horas. Hoje, no cimo desse mesmo outeiro, ergue-se um obelisco de pedra clara, rodeado de placas que recordam os comandantes envolvidos. O vento continua a soprar com a mesma intensidade, mas agora traz apenas o cheiro a terra seca e a resina de pinheiro. No Centro de Interpretação da Batalha do Vimeiro, instalado no antigo edifício das escolas primárias, uma maqueta em 3D recria o desenrolar dos ataques: luzes vermelhas simulam as descargas de artilharia, e o som grave dos canhões ecoa entre as paredes brancas. As vitrines expõem uniformes de lã grossa, baionetas enferrujadas, mapas desenhados a tinta sépia.
A Igreja Paroquial de São Miguel, dedicada ao arcanjo guerreiro, serviu de posto médico improvisado durante o combate. Nas paredes de cal ainda se distinguem, se olharmos com atenção, marcas escuras deixadas pelos projéteis. O interior é fresco, cheira a cera e a pedra húmida. Nos dias de recriação histórica — que a Câmara da Lourinhã organiza todos os anos em julho, com cerca de 300 recriadores vindos de vários países —, a praça em frente à igreja enche-se de tendas militares, fogueiras de bivaque, mulheres de saias compridas e xailes de lã. O som dos violinos no baile oitocentista mistura-se com o cheiro a ensopado de borrego e pão de milho acabado de assar nas tasquinhas. A cerimónia do Arriar das Bandeiras, ao cair da tarde, fecha as comemorações com uma salva de mosquetes que ecoa pelo vale e assusta as gaivotas que sobrevoam os campos.
Entre a vinha e o pomar
A paisagem de Vimeiro organiza-se em manchas: vinhas de casta branca, alinhadas em socalcos suaves, pomares de Maçã de Alcobaça e Pêra Rocha do Oeste que florescem em março com pétalas brancas e perfume doce. A freguesia insere-se na região vinícola de Lisboa, produzindo vinhos leves e frutados que acompanham o peixe grelhado trazido das lotas da Lourinhã. Nos bosquetes de sobreiro e azinheira que pontuam os campos, o silêncio é denso, quebrado apenas pelo farfalhar das folhas secas. Caminhos rurais de terra batida ligam o núcleo urbano ao outeiro da batalha, atravessam searas e hortas onde crescem couves e abóboras. Alguns destes trilhos integram o Caminho da Costa de Santiago, e não é raro cruzar peregrinos de mochila às costas, bordão na mão, a caminho do Cabo Espichel.
A dez quilómetros, a Praia da Areia Branca estende-se em faixa dourada, com ondas que atraem surfistas e bodyboarders. Mas aqui, no interior, a proximidade do mar sente-se apenas na brisa que refresca as tardes de verão e no horizonte azul que se adivinha entre os montes. A freguesia pertence ao Geopark Oeste, e nas arribas próximas da costa — a uma caminhada de carro e de botas — é possível encontrar pegadas de dinossauro fossilizadas na rocha calcária, testemunho de um tempo em que o oceano cobria estas terras.
Onde comer e o que levar
O restaurante O Peleiro serve cabrito assado no forno de lenha às quartas e fins de semana. Telefone: 261 980 342. Marque com antecedência — só há 12 mesas. Para levar, compre vinho branco na Quinta do Rol. O acesso é por estrão de terra a 2 km após o monumento; abre das 14h às 18h, mas fecha sem aviso se acabar a garrafa. Onde dormir: o Solar dos Amieiros tem dois quartos com vista para a serra. Custo: 80€/noite. Cozinha partilhada. Não há televisão.
O eco dos mosquetes
Ao final da tarde, quando a luz rasante doura os troncos das oliveiras e o vento abranda, o outeiro do monumento torna-se um miradouro silencioso. Dali vê-se o vale do Lis, a mancha verde-escura dos bosques, as linhas rectas dos pomares. O som que fica na memória não é o estrondo dos canhões recriados, mas o silvo suave do vento entre as pedras do obelisco — um sopro constante, antigo, que atravessa os campos como se ainda procurasse o eco perdido das ordens de fogo que, há mais de dois séculos, decidiram o destino de uma guerra.