Artigo completo sobre Encarnação: onde a pêra Rocha marca o tempo
Freguesia de Mafra entre pomares certificados e o Caminho de Santiago rumo ao Atlântico
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A luz da manhã entra pelas frestas das portadas de madeira e desenha linhas no soalho. Lá fora, o som de um tractor a aquecer mistura-se com o chilrear dos pardais nos telhados de telha. Encarnação acorda devagar, entre o campo e a proximidade de Mafra, numa geografia que não é nem completamente rural nem inteiramente suburbana — é aquilo a que chamamos "o sítio onde se pode deixar o carro à porta de casa e ainda ouvir o galo do vizinho".
Entre a Pêra e o Caminho
A freguesia estende-se por quase três mil hectares de território ondulado, onde os pomares de pereira Rocha do Oeste desenham linhas regulares na paisagem. Aqui, a Pêra Rocha não é apenas um selo DOP — é o tema de conversa no Café Progresso quando as geadas se atrasam, é a desculpa perfeita para adiar o almoço em Agosto ("vamos só mais um bocadinho para a apanha"), é aquilo que faz o Sr. Armando dizer com orgulho que "aqui ainda se faz fruta de jeito". Os troncos tortos das pereiras mais antigas contrastam com os pomares novos, plantados em filas geométricas, onde a fruta cresce protegida por redes que ao entardecer parecem labirintos de fio prateado.
Pelo meio desta paisagem passa o Caminho da Costa, uma das rotas portuguesas de Santiago. Os peregrinos atravessam Encarnação com as botas empoeiradas, a perguntar se ainda falta muito para Mafra e a agradecer quando lhes dizemos que "é ali ao fundo, já vê o convento". Não há grandes monumentos no trajecto — mas há a fonte da Ribeira onde se pode beber água fresca, o muro baixo junto à Capela da Boa Viagem onde se faz a paragem obrigatória para tirar a mochila das costas, e o Sr. Joaquim que, se o dia estiver morno, oferece um copo de vinho branco aos que parecem cansados.
O Peso do Vizinho
Viver em Encarnação é viver com o Palácio de Mafra sempre à espreita no horizonte. O edifício da UNESCO fica a dez minutos de carro, mas o seu peso histórico sente-se de outras formas: nas histórias dos antigos que trabalharam nas pedreiras de pedra lioz, nas estradas estreitas que os reis mandaram abrir, na forma como dizemos "vamos ao Convento" quando na realidade vamos ao supermercado de Mafra. A freguesia tem apenas um imóvel de interesse público classificado — mas tem o que interessa: espaço, silêncio à noite, e a certeza de que o trânsito é coisa que só existe quando há procissão.
Hoje, essa proximidade traduz-se em movimento. Encarnação funciona como dormitório para quem trabalha em Mafra, Ericeira ou até Lisboa — afinal, a A8 fica ali ao lado e em 30 minutos estamos no Marquês. Os 46 alojamentos turísticos não são para festas de despedida de solteiro — são sobretudo casas para avós visitarem netos que emigraram, ou para alemães que vêm ver o que é isto da "autêntica aldeia portuguesa" (e que acabam por descobrir que o restaurante mais próximo fecha às 22h).
Gerações Sobrepostas
Há mais idosos que crianças — 1074 pessoas com mais de 65 anos, contra 710 jovens até aos 14. Esta matemática lê-se nas ruas: os bancos de jardim da praça ocupados por volta das 10h, as escolas com turmas que cabem todas num autocarro, as conversas que começam com "o teu avô e eu costumávamos...". Não é abandono — é o ciclo natural da coisa. As crianças brincam nos mesmos largos onde os avós brincaram, mas agora os pais estão no WhatsApp a combinar quem vai buscar quem às 17h.
O quotidiano constrói-se nestes pequenos rituais: o pão comprado às 7h na padaria (porque às 8h já só há baguete), o "bom dia" trocado com o Sr. António que já sabe que o teu carro está estacionado em frente à casa dele há uma semana, o conhecimento mútuo que faz com que ninguém perca tempo com GPS. Não há multidões nem anonimato — o nível de movimento é o suficiente para encontrar alguém que conheces sempre que vais ao café, mas nunca tanto que te lembres que estás numa cidade.
Ao final da tarde, o cheiro a lenha começa a soltar-se das chaminés. As pereiras recortam-se contra o céu alaranjado, e algures na distância ouve-se o sino da Igreja que marca as horas — ou os minutos, dependendo da vontade de quem o toca. Não há urgência. Apenas a certeza de que amanhã o café abre às 7h, a pão será fresco, e alguém vai comentar que "hoje está mais frio que ontem, hem?".
É isto.